O Revolucionário Ben Bella e o Rei Pelé

O Revolucionário Ben Bella e o Rei Pelé

Jamil Chade

11 de abril de 2012 | 19h33

Ben Bella, entre Pelé e Garrincha

Ahmed Ben Bella faleceu hoje em Argel com 96 aos. O líder revolucionário foi o primeiro presidente da Argélia independente e comandou a batalha sangrenta contra o então império francês. Mas o que poucos sabem é que parte de seu destino foi traçado por Pelé, ainda que o ex-jogador não tivesse qualquer ideia do que ocorria.

Pelé de fato é sempre lembrado como a pessoa que conseguiu até mesmo parar uma guerra, no caso entre as tropas de Kinshasa e Brazzaville, no ex-Congo Belga em 1969.

Mas revelações feitas pelo presidente da Federação Argelina de Futebol, Mohamed Raouraoua, apontam que o ex-número 10 da seleção e do Santos, sem saber, também foi o pivô de um golpe de estado. O incidente ocorreu em junho de 1965.

Naquele mês, a seleção brasileira comandada por Feola foi jogar na Argélia um amistoso contra a seleção local, que poucos anos antes havia conseguido sua independência. O jogo ocorreu no estádio de Oran, no dia 17 de junho, e atraiu a atenção de todo o país. No estádio de Bouakeul, milhares de pessoas esperaram por horas para ver a entrada em campo de Pelé. Mas o povo não foi o único a enfrentar o calor do verão africano.

No estádio estava também Ben Bella, na época presidente do país. O que ele não sabia era que aquele seria seu último evento público como presidente argelino e o início de um longo calvário.

Em apenas 25 minutos de jogo, os campeões mundiais definiram a partida. Dudu, Gerson e Pelé fechariam o placar. Os astros locais como Zerga, Zitouni, Bourouba, Lekkak, Soukhane, Makhloufi, Oudjani e Mattem nada puderam fazer. Mas seria nas arquibancadas que o destino da Argélia estaria sendo definido. Ben Bella, que havia sido jogador do Olympique de Marselha na temporada de 1939 e 1940 e que atuou pela seleção francesa militar quando seu país era ainda uma colônia, era um fã de Pelé e optou por deixar Argel e viajar até Oran para acompanhar a partida.

“Ben Bella gostava muito da seleção brasileira e de Pelé”, disse Mohamed Raouraoua, o homem forte do futebol argelino.  Mas enquanto o presidente viajava, seu ministro da Defesa Houari Boumediene e seus homens aproveitariam a ausência de Ben Bella da capital para manipular o golpe de estado que derrubaria o presidente e acabaria com a democracia no país que acabava de ganhar sua independência.

Um relato escrito por um coronel leal a Ben Bella revela a tensão nas arquibancadas. “Eu avisei a Boumediene que eu iria me juntar a Ben Bella a Oran para ver o jogo entre o Brasil e com a presença de Pelé”, escreveria duas décadas depois o coronel Bencherif. “Diante da tribuna onde eu estava sentado, logo atras de Ben Bella, Mahmoud Guenez era quem comandava o serviço de segurança e havia colocado uma barreira de sua milícia. Eu havia ordenado o dobro de policiais”, esclareceria o coronel.

No intervalo do jogo, Ben Bella fez questão de ir ao vestiário para saudar Pelé, que já seria substituído. Ganhou uma camisa autografada e explicou ao craque brasileiro que também havia sido um jogador de futebol.

O segundo tempo seria marcado não pelo espetáculo em campo, mas por tentativas de torcedores de acertar o presidente com bolas de papel. A seleção de Feola e Garrincha seguiria para Portugal, onde disputaria outro amistoso contra a seleção local. Já  Ben Bella voltaria para a capital no dia seguinte. Mas seu destino já estava traçado no país que havia servido de inspiração para movimentos de independência em todo o mundo.

Ele havia recebido e ajudado Che Guevara, Nelson Mandela, Malcolm X e Amilcar Cabral. Mas não resistiria à luta de poder dentro de suas próprias fileiras. Na noite do dia 18 para 19 de junho, Argel seria tomada pelo ministro da Defesa. Em plena noite, Ben Bella seria preso ainda vestindo pijamas. Não foi autorizado a levar nenhuma roupa e, anos mais tarde, revelaria que tinha a certeza de que seria executado. Ben Bella seria mantido em uma prisão até 1979 e só nos anos 80 pode sair do país, em m exílio forçado. Voltaria dez anos depois e começaria a romper seu silêncio, criticando o governo local.

No ano passado, vi Ben Bella sendo ovacionado por políticos locais em um evento em Argel promovido pelo próprio governo, numa espécie de compensação pelo que havia sofrido. Quando o questionei sobre questões políticas, Ben Bella já idoso e com dificuldades para ouvir e se mover, apenas reagiu quando entendeu que a reportagem era de um jornal do “Brasil”. “Ah o Brasil”, exclamou, com um generoso sorriso.

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