O sonho: a arma das crianças refugiadas

O sonho: a arma das crianças refugiadas

Jamil Chade

07 Setembro 2015 | 03h16

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Neste domingo, eu entrei em um trem com centenas de refugiados. Eram homens e mulheres com rostos de medo. Sem saber para onde iriam. Sem saber o que seria o resto de suas vidas. Muitos levavam em seus braços crianças e bebês que subiam nos vagões não apenas sem saber para onde iriam, mas sem entender o motivo pelo qual deixaram suas casas.

Exaustos, dormiam nos braços de seus pais ou de irmãos mais velhos. Todos os estudos da ONU mostram que eles são os mais traumatizados pelo conflito, seja na Síria, Iraque ou Afeganistão. Mas me surpreendi em descobrir que a resistência maior ao drama dos refugiados vem justamente dessas crianças.

Com sua ingenuidade, caminhavam ontem pelo trem entre Budapeste e Viena como se fosse suas casas. Um grupo de afegãos de não mais de dez anos tentava repetir alguma brincadeira que havia aprendido no quintal de casa. Quando tentei fazer uma foto, não faltou um engraçadinho tentando fazer “chifrinhos” no irmão. Outros, do Iraque, colecionavam tampinhas de refrigerantes e as amontoavam como se fossem um castelo.

Os voluntários também ajudavam essas crianças a esquecer um pouco da guerra. Um deles, em Budapeste, sobrava bolhas de sabão, levando as crianças a abrir a boca de encantamento, como qualquer reação de qualquer criança de qualquer nacionalidade ou classe social. Elas corriam atrás daquela ilusão que iria se desfazer em poucos segundos.

Também descobri que ilusão era o que não faltava entre as crianças. Quando o meu trem estava prestes a chegar ao seu destino final, em Viena, um grupo de crianças afegã com as quais brinquei por não mais de dez minutos veio a mim entregar um papel dobrado.

Ao abri, descobri que, aos olhos delas, seu pais era ainda o paraíso. Era um desenho do que seria o Afeganistão. Com suas montanhas ao fundo, céu azul, um pasto verde, uma casinha sem qualquer traço da guerra, árvores e uma bandeira.

No desenho, um homem que sorria e parecia querer convidar a conhecer o país, com um poder de convicção muito maior que qualquer cartaz da Embratur. E uma palavra: “Love”.

Se o garoto Aylan foi levado por seu pai para fora da guerra, era porque o sírio estava convencido de que as crianças precisariam ser protegidas daquelas tragédia. Para manter sua ingenuidade, seus sonhos.

Num trem repleto de refugiados, me deparei com a constatação de que e a resistência contra o drama das crianças vem da imagem de paraíso que seus olhos não deixam borrar por bombas e crimes contra a humanidade. Mesmo que seja apenas uma ilusão, como as bolhas de sabão. Sonhar é sua única real defesa.IMG_2679

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