ONU afasta funcionário que denunciou crimes de tropas de paz e abre crise

Jamil Chade

01 de maio de 2015 | 06h55

 

GENEBRA – A ONU passa seus dias acusando governos de violações de direitos humanos. Mas quando os crimes são cometidos pela entidade, a ordem parece ser a de abafar os casos e punir os responsáveis por ter feito a denúncia. Nesta semana, a ONU afastou o funcionário de alto escalão, Anders Kompass. Seu delito : ter entregue à Justiça francesa documentos que mostram que soldados franceses estupraram garotos em campos de refugiados na República Centro-Africana.

Kompass decidiu repassar a informação para o Ministério Público da França depois que se deu conta que crimes cometidos por soldados de missões internacionais não estavam sendo investigados de forma adequada dentro da ONU. O informe revelava o abuso sexual de crianças de até nove anos por tropas das Nações Unidas, fornecidas pela França.

Kompass, por repassar a informação à Justiça, foi afastado de seu cargo de diretor de operações sob a alegação de vazar documentos confidenciais da ONU. Ele está sob investigação e pode ser demitido. O informe produzido internamente pela ONU revela como as tropas de paz que foram enviadas cometeram os piores crimes contra aqueles que deveriam ser protegidos por eles mesmos. Os garotos, alguns dos quais eram órfãos, revelaram que foram alvos de estupros em um dos centros de refugiados, no aeroporto de Bangui.

Alguns revelaram que foram abusados em troca de comida ou dinheiro. As revelações colocaram a ONU em uma posição complicada. Nesta sexta-feira, o porta-voz das Nações Unidas para Direitos Humanos, Rupert Colville, confirmou que existe uma investigação realizada pelos franceses e que as descobertas são “horríveis”. “É muito importante que isso seja investigado, inclusive para evitar novos casos”, disse. Colville também justifica: as tropas que cometeram os crimes estavam sob o mandato da ONU. “Mas não sob o comando da ONU”, disse.

“Temos tolerância zero com relação a esses incidentes e é ofensivo dizer que a ONU estava tentando abafar abusos”, garantiu. Mas, a pedido de Zeid Ra’ad Al Hussein, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, uma nova investigacao foi realizada. Desta vez, contra Kompass.

A acusação é de que ele teria passado os documentos a atores externos, sem garantir a proteção das vítimas. « Essas crianças podem ser alvos de represálias e podem desaparecer, como já ocorreu no passado », declarou Colville. «Estamos preocupados que documentos foram dados a jornalistas, com os nomes das vítimas e pedimos que não sejam divulgados », disse.

A Unicef garante que, depois do ocorrido, medidas de proteção foram tomadas para garantir a segurança das crianças. As vítimas foram atendidas por psicólogos e médicos. Mas a Unicef não conseguiu detalhar quando a proteção às crianças começou.

Abafados – Essa, porém, não é a primeira vez que denúncias feitas internamente na ONU são abafadas. Há um mês, um grupo de funcionários que revelaram irregularidades e crimes enviou uma carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, acusando as Nações Unidas de não dar qualquer tipo de proteção a funcionários dispostos a revelar problemas sérios da administração. Segundo a carta, funcionários que ousam agir são punidos como retaliação, afastados, intimidados e até demitidos.

Miranda Brown, do escritório de Direitos Humanos da ONU, foi transferida de Genebra para Fiji depois que ela depôs em um caso de corrupção. Outro ex-funcionário, o americano James Wasserstrom, foi demitido depois que denunciou a corrupção de US$ 500 milhões na missão da ONU no Kosovo. Ao fazer a denúncia, ele foi preso e depois demitido. Em 2009, um tribunal interno da ONU deu ganho de causa ao ex-funcionário, condenando a organização.

Mas, meses depois, a condenação foi abafada depois que um novo processo reverteu a decisão diante de um recurso do secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon.