Irã apresenta proposta nuclear para “evitar crise desnecessária”

Irã apresenta proposta nuclear para “evitar crise desnecessária”

Jamil Chade

15 de outubro de 2013 | 05h32

 

 

 

ONU cobre escultura de homem nu para não chocar iranianos 

 

GENEBRA – O governo do Irã apresentou nesta manhã um novo plano às potências sobre como controlar seu programa nuclear. Meta: “evitar crises desnecessárias”. O projeto está sendo explicado neste momento em Genebra na sede da ONU aos governos dos EUA, Alemanha, França, Reino Unido, China e  Rússia. Teerã chamou o pacote de “Abrindo Novos Horizontes”.

“Uma proposta foi apresentada. Podemos confirmar isso”, declarou Michael Mann, porta-voz da UE. Por enquanto, os detalhes não foram revelados. Mas indicações de diplomatas revelam que o plano prevê maior transparência do Irã em relação ao programa nuclear e desaceleração de certa atividade de enriquecimento. A apresentação do plano dura mais de uma hora, com a delegação iraniana usando um projetor para explicar cada um dos itens da proposta.

“São os iranianos que precisam mostrar sinais de que querem negociar”, insistiu Mann, deixando claro que a responsabilidade do sucesso ou fracasso do debate está com Teerã.

Plano – O Estado apurou que o plano terá três etapas. A primeira, com duração de seis meses, prevê que potências aceitem claramente que o Irã tem o direito do uso da energia nuclear para fins pacíficos. O segundo momento é a implementação das ações de congelamento de certas atividades. Ao final, uma terceira etapa garantiria que o Irã possa efetivamente usar essa energia nuclear.

Abbas Araqchi, o vice-chanceler iraniano, garantiu em resposta a uma questão do Estado que acredita que a proposta tem “o potencial de romper o impasse”. Mas não detalhou o que está disposto a fazer para atender às potências.

Num primeiro sinal positivo, a delegação iraniana aceitou apresentar seu projeto inteiro em inglês, rompendo uma tradição de anos. A opção por usar o idioma inglês, porém, está sendo interpretado como um sinal claro de que Teerã quer um acordo.

As potências mundiais indicaram estão dispostas a rever as sanções impostas sobre o Irã. Mas, para isso, exigem que o governo de Teerã adote rapidamente três medidas específicas para testar se o discurso conciliatórios das últimas semanas do novo governo pode ser traduzido em ações. Segundo fontes da Casa Branca, o relaxamento das sanções será “proporcional” ao que o Irã ceder em seu programa nuclear.

A nova fase do relacionamento entre o Irã e o Ocidente passa hoje por seu teste de fogo. Reunidos em Genebra, as delegações das maiores potências e de Teerã retomam o processo negociador para tentar estabelecer um acordo sobre o futuro do programa nuclear iraniano e com a meta declarada de se chegar a uma “rota da estrada” até um acordo final.

Americano e europeus indicaram ao Estado que querem do Irã sinais de avanços “rápidos” de que está disposto a atender às exigências. Enquanto a negociação ocorrer, as sanções serão mantidas. Mas restrições nas exportações de produtos petroquímicos e metais poderão ser os primeiros itens a serem levantados caso haja um avanço.

De ambos os lados, governos tentam dar sinais de um “otimismo cauteloso”. As conversas entre o Irã e o grupo 5+ 1, composto por EUA, China, Rússia, Grã-Bretanha, França e Alemanha, serão as primeiras desde a vitória do presidente Hassan Rohani, que abandonou o discurso ameaçador de Mahmoud Ahmadinejad e tenta reduzir as sanções que pesam sobre o país. Trata-se ainda da primeira real tentativa de um acordo desde a ida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Teerã, em 2010.

Na mesa de negociação estarão pelo menos sobre dois aspectos. De um lado, as potências querem provas reais do compromisso de Teerã em congelar seu programa nuclear, com a redução do estoque de urânio, o fechamento de plantas ou parar o funcionamento de centrífugas.

De outro, Teerã quer que as sanções sejam flexibilizadas diante de uma economia que sofre uma contração de 6% do PIB, desemprego e queda nas exportações de petróleo. Outra exigência de Teerã é de que se reconheça que o país tem o direito de manter um programa nuclear para fins pacíficos. Para o governo alemão, o Irã perde US$ 40 bilhões com as sanções por ano.

“O regime de sanções existe para incentivar os iranianos a negociar e é o que estão fazendo. Quando houve mudança reais, também teremos reais nas sanções”, declarou Michael Mann.

Nu – Numa negociação de alto risco e com consequência para a paz mundial, nenhum detalhe foi esquecido para a conferência entre as maiores potências mundiais e o Irã hoje em Genebra. Ontem, uma escultura que adorna a entrada da sala da ONU onde as potências irão se reunir com o Irã foi coberta por uma tela branca. O motivo: uma das imagens era de um homem inteiramente nu, algo que poderia criar constrangimentos para a delegação iraniana.

Na porta da Sala do Conselho do Palácio das Nações, em Genebra, a obra do escultor britânico Eric Gill e feita de mármore de Ashburton foi substituída por um longo pano branco. Ao lado, uma bandeira da União Europeia e do Irã.

A obra, chamada de “Criação do Homem, é uma das mais visitadas dentro da ONU por turistas e foi um presente de Londres à entidade em 1938, quando o prédio ainda abrigava a Liga das Nações.

 

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