ONU: conflito no Mali já deslocou mais de 30 mil pessoas

Jamil Chade

15 de janeiro de 2013 | 17h06

A intensificação dos conflitos no Mali já gerou mais de 30 mil deslocados internos em apenas poucos dias, além de obrigar centenas de moradores das áreas atingidas pelo conflito a fugir para países vizinhos como Niger e Mauritânia. A informação foi revelada pela ONU que ainda alerta para o fato de que islamistas estariam recrutando menores de idade nos vilarejos para lutar contra o exército do Mali e as tropas francesas.

Em 2012, pelo menos 200 mil pessoas deixaram suas casas, fugindo da violência no norte do Mali ou da imposição de leis islâmicas. Outros 144 mil cruzaram as fronteiras.
Agora, em menos de uma semana de combates e do desembarque da ex-potência colonial, a França, as informaçoes apontam que cerca de 30 mil novos deslocados internos já foram gerados desde que rebeldes passaram a ser confrontados pelos exércitos regulares ao tentarem deixar o norte do país e colocar a capital Bamako como alvo de sua ação.

Paris indicou que a decisão de intervir veio depois de análises que apontavam que os grupos rebeldes islamistas, apoiados pela Al Qaeda, poderia tomar a capital. Na prática, isso simplesmente representaria o risco do surgimento de um Afeganistão na África.

Mas, como em tantas outras ocasioes, não existe guerra sem vítimas colaterais. Segundo Adrian Edwards, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, pelo menos 1,2 mil pessoas já chegaram do Mali ao Niger, Burkina Faso e Mauritania em uma semana. Ele mesmo admite, porém, que outros 5 mil deixaram a região de Mopti para o Niger, cruzando o rio Niger e se estabelecendo em vilarejos locais. “Estamos claramente vendo populaçoes sendo deslocadas por conta dos confrontos”, disse.

Segundo a Unicef, um dos fatores que mais preocupa é a informação de que islamistas já estariam recrutando crianças para o combate. “Essa era um risco que já vínhamos alertando há meses”, indicou a assessoria de imprensa da entidade.

Jens Laerke, porta-voz do Escritório da ONU para Coordenaçao Humanitária, confirma que, desde que os conflitos ganharam força, a situação humanitária sofreu uma “rápida deterioração”.

Mas ele deixa claro que a situação desesperadora para muitos não era uma novidade. Na realidade, a ONU vem alertando para a crise humanitária há meses, sem qualquer resposta da comunidade internacional.

Segundo ele, o conflito chega em um momento em que 4,2 milhoes de pessoas no Mali já vão precisar de ajuda em 2013 para sobreviver. 2 milhoes delas precisarão ser alimentadas pela ONU.

Apesar de todos os apelos da ONU por dinheiro, apenas 60% do que a entidade solicitou como recurso para socorrer a populaçao do Mali – antes do conflito – chegou aos cofres da ONU.

Diante do desespero de milhares de pessoas, da fome, de políticas promovidas pelo Banco Mundial e que arruinaram a agricultura do Mali e do abandono da comunidade internacional, nao deveria ser surpresa para ninguém o avanço de rebeldes islamistas e a radicalizaçao de líderes.

A realidade é que o que antes poderia ter sido freado com desenvolvimento e alimentos, agora terá de ser lutado com armas.

Enquanto eram pobres africanos que morriam de fome, não valia a pena intervir. Mas agora que o risco é a segurança da Europa, a intervenção é legítima…e urgente.

 

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