ONU: crise mundial gera queda de investimentos nos Brics e EUA

Jamil Chade

23 de outubro de 2012 | 14h07

Diante das incertezas, multinacionais fecham as torneiras e o fluxo de investimentos estrangeiros ao Brasil, ao restante dos Brics e EUA sofre uma importante queda. Dados divulgados hoje pela ONU apontam que os investimentos mundiais registraram uma retração de 8,4% no primeiro semestre do ano, chegando a US$ 668 bilhões, e a entidade foi obrigada a rever para baixo a projeção de fluxo de investimentos diretos em 2012.

No Brasil, a queda foi mais profunda que a média mundial – de 8,6% em comparação a 2011 – e o País caiu da quinta para a sexta posição entre os principais destinos de investimentos. O Banco Central estima que o ano terminará com um fluxo ao país de US$ 60 bilhões, cerca de 10% abaixo do volume de 2011.

Em um ano, a redução mundial de investimentos foi de US$ 61 bilhões, quase integralmente por conta da redução de US$ 37 bilhões nos Estados Unidos e a queda de US$ 23 bilhões nos Brics. Diante da contração, o fluxo mundial chegará na melhor das hipóteses a US$ 1,6 trilhão em 2012, um crescimento zero em comparação a 2011.

A situação dos investimentos segue um padrão que já foi registrado no comércio, com uma redução da projeção do crescimento das exportações para apenas 2,5%. Há poucas semanas, o próprio FMI reduziu a previsão do crescimento da economia mundial para 3,3%.

A ONU não descarta nem mesmo uma deterioração ainda mais significativa dos investimentos em 2013 e aponta que os riscos de “choques macroeconômicos” são elevados. “A tendência de investimento é preocupante”,declarou Supachai Panitchpakdi, secretário-geral da Unctad.

Para James Zhan, diretor da divisão de Investimentos da entidade, o principal fator que está sendo responsável pela queda de investimentos é o sentimento de incerteza que domina a economia mundial, protecionismo, políticas de nacionalização em alta e a desaceleração do crescimento nas maiores economias. “Multinacionais estão sentadas sobre trilhões de dólares e esperando ver o que ocorre, antes de iniciar investimentos”, declarou. Uma prova dessa situação é a queda de 55% no volume de dinheiro usado em aquisições e fusões no mundo no semestre.

No primeiro semestre do ano, a maior queda em volume ocorreu nos Estados Unidos, com uma redução de 39% na entrada de investimentos no país. Isso permitiu que a China terminasse o semestre como a região do mundo que mais recebeu investimentos, com US$ 59,1 bilhões. De fato, pela primeira vez, emergentes receberam mais da metade de investimentos mundiais.

A Europa também registrou uma queda de investimetos, de 3,8%. Uma das piores situações é a da Itália, que registrou um desinvestimento de US$ 1,6 bilhão. Na Alemanha, o aumento de investimentos registrou um freio de 19%, contra 43% na Irlanda. Ironicamente, as privatizações em Portugal e a recapitalização dos bancos espanhois camuflam os números. No caso português, a venda de empresas permitiu que os investimentos aumentassem em 260%, passando de US$ 2,2 bilhões para US$ 7,8 bilhões. Na Espanha, a decisão de bancos de repatriar lucros de suas sucursais, inclusive no Brasil, permitiram que os números mostrassem um aumento de 372%, com US$ 14,8 bilhões.

Brasil – Mas o que surpreendeu é que os Brics também foram afetados e viram os investimentos em suas economias cair. No caso brasileiro, a queda foi de 8,6%, com investimentos chegando a US$ 29,7 bilhões. Para a Unctad, o valor é ainda elevado, mas ficou abaixo dos US$ 32 bilhões do primeiro semestre de 2011.

Com a redução, o Brasil acabou sendo superado pelo Reino Unido e França e perdeu sua posição de quinto maior reeptor de investimentos. A queda brasileira é duas vezes superior à redução nos emergentes, de 4,8%.

No restante dos Brics, a situação é parecida. A China sofreu uma redução de 3%, contra uma queda de 26% em Hong Kong. No geral, o continente asiático perdeu 11% em investimentos, diante da constatação de multinacionais de que a demanda mundial vem caindo e que investir em incrementar a produção não seria mais necessário por enquanto.

Investimentos na Rússia desabaram em quase 40%, para US$ 16,3 bilhões, enquanto a Índia sofreu uma redução de 42% na entrada de recursos, para US$ 10,4 bilhões.

 

OS PRINCIPAIS DESTINOS DE INVESTIMENTOS NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2012

 

1. China              US$ 59,1 bilhões

2. EUA                US$ 57,4 bilhões

3. Hong Kong    US$ 40,8 bilhões

4. França            US$ 34,7 bilhões

5. Reino Unido  US$ 30,8 bilhões

6. Brasil               US$ 29,7 bilhões

7. Cingapura       US$ 27,4 bilhões

8. Canadá            US$ 24,5 bilhões

9. Austrália         US$  23,5 bilhões

Fonte: Unctad

 

 

 

 

Jamil Chade é correspodente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. « O Mundo Não é Plano » (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

 

 

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