ONU confirma que recebeu informações de que armas químicas foram usadas na Síria

Jamil Chade

11 de setembro de 2013 | 05h32

Comissão liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro diz que ainda não pode determinar os autores. Mas alerta que crimes de guerra e crimes contra a humanidade são cada vez mais frequentes

 

A Comissão de Inquérito da ONU liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro sobre os crimes na Síria confirma que recebeu “alegações” de que armas químicas foram usadas no conflito no país árabe e que os indícios apontariam para o fato de que esse uso tenha ocorrido “predominantemente” pelo governo. Mas a comissão evita ainda chegar a conclusões finais sobre os autores dos ataques.

Pinheiro e seu grupo publicaram hoje em Genebra seu novo informe sobre os crimes cometidos na Síria. Segundo ele, o país “se transformou em um campo de batalha” e sua “sociedade está destruída”.

Em seu informe, Pinheiro admite que a comissão da ONU recebeu “alegações do uso de armas químicas, predominantemente por forças governamentais”. Ele pede que, caso os ataques sejam confirmados, que os autores sejam levados à Justiça.

O tema tem sido o centro do debate internacional sobre um eventual ataque estrangeiro contra a Síria, diante do uso de armas proibidas. Pinheiro, porém, evita chegar a conclusões sobre os autores do atos que, pela lei internacional, seria um crime de guerra.

“Diante das evidências existentes hoje, não foi possível chegar a uma conclusão sobre os agentes químicos usados, a forma de ataque ou seus autores”, indicou o informe. “Investigações ainda estão em curso”, completou. Entre suas recomendações, porém, Pinheiro insiste em pedir que tanto rebeldes quanto o governo “rejeitem” o uso de armas químicas.

Em sua avaliação, a Comissão ataca países e grupos que tem fornecido armas aos sírios, seja para rebeldes ou para governo. “Quem está fornecendo armas só cria uma ilusão de vitória”, disse.

O que mais assusta os investigadores é que, hoje, os massacres estão sendo cometidos por forças do governo e por rebeldes em total impunidade. Para a comissão, ataques generalizados de governo e rebeldes contra a população estão ocorrendo quase que de forma contínua.

Segundo ele, isso poderia classificado como crimes contra a humanidade e crimes de guerra e são cada vez mais claros e frequentes, tanto por forças do governo quanto por rebeldes.  Sua investigação aponta que o governo está bombardeando hospitais, atacando a população e ignorando as regras humanitárias. Já os rebeldes estariam cometendo crimes de guerra ao atacar indiscriminadamente bairros inteiros, sequestrar e torturar.

Os métodos usados para conquistar territórios estariam violando qualquer lei internacional e, para Pinheiro, é “imperativo” que os responsáveis de ambos os lados sejam levados aos tribunais. Para ele, dois anos e meio depois do início do conflito, esses grupos estão agindo “sem medo de punições”. “A maioria das mortes hoje resulta de ataques ilegais”, completou.

Pinheiro ainda acusa políticos de estarem alimentando o caráter sectário da guerra.