ONU lança maior ofensiva diplomática para tentar acabar com guerra na Síria

Jamil Chade

05 de maio de 2015 | 07h54

GENEBRA – A ONU se lança no mais amplo processo político para tentar dar um fim à guerra na Síria. A partir de hoje, em Genebra, a entidade reúne mais de 40 grupos sírios, além do governo de Bashar Al Assad, 20 atores regionais e governos do Conselho de Segurança para consultas. Pela primeira vez, o debate inclui grupos de mulheres, comandantes de grupos armados, religiosos e sociedade civil. Mas as diferenças ainda são profundas e, antes mesmo de o processo começar, grupos já se acusam mutuamente.

O Estado Islâmico e o grupo Al Nusra, que juntos controlam quase 30% do território sírio, não foram convidados. Mas fontes diplomáticas apontaram que grupos com contatos com esses comandos terroristas estarão na ONU.

“Não temos autorização de falar com esses grupos, por conta de uma resolução da ONU. Mas presumo que alguns dos convidados poderão ser pessoas que tenham contato com eles e que possam influenciá-los”, admitiu Staffan de Mistura, mediador da ONU. “A Síria é a maior tragédia humanitária desde Segunda Guerra Mundial. Vou começar consultas para poder operacionalizar um acordo”, insistiu.

“Depois de cinco anos de conflito e 220 mil mortos, quase nada se moveu. Mas o conflito se intensificou. Nas últimas semanas, ficou claro que a crise se aprofundou”, alertou. “Precisamos redobrar o esforço por uma solução política”, declarou. “Esse será um teste para ver se existe espaço para uma nova conferência de paz”, disse. “Não podemos mais esperar, enquanto sírios viram estatísticas”, insistiu.

A base da negociação é a Declaração de Genebra, que há três anos estabeleceu uma saída para a crise com a criação de um governo de transição. Mas nunca houve um acordo se Assad deveria ou não participar desse governo transitório.

Mistura admite que a base pode mudar, diante do fato de que, desde que a declaração foi costurada há três anos, o Estado Islâmico surgiu e Assad chegou a promover uma eleição. “Vamos ouvir o que todos tem a dizer e vamos ver onde teremos pontos de convergência”, explicou. Para a oposição moderada, duas exigências precisam ser estabelecidas: Assad não pode ter lugar num futuro governo e as conversas em Genebra precisam tratar da formação de um governo de transição. Assad se recusa a aceitar essa saída e insiste que o objetivo é o de lutar contra o terrorismo. “É o povo sírio que precisa decidir se Assad deve ficar ou sair”, alertou Mistura.

Outra foco de tensão é a participação do Irã, criticada pela oposição síria. Para o mediador, porém, não pode haver um acordo sem a presença de Teerã.

Ao mesmo tempo que em Genebra a negociação ocorre, os iranianos tentam fechar um acordo para normalizar as relações com os EUA. “Ainda é cedo para dizer se a negociação nuclear iraniana terá um impacto positivo no processo”, declarou o mediador. Um obstáculo ainda é o conflito no Iêmen, que passou a desestabilizar a região.

Álibi – Entre os membros da oposição síria, Mistura é duramente atacado. Primeiro por ter convidado grupos de oposição que, segundo eles, foram criados pelo próprio governo para tentar influenciar em um resultado final favorável ao governo. Mistura também é criticado por ter proposto, em 2014, o congelamento do conflito, enquanto governo e EI continuaram a ganhar terreno. “Não me arrependo”, disse.

A meta do processo é a de convocar, se houver um acordo, uma nova conferência de paz. Depois de duas tentativas fracassadas em Genebra em cinco anos, a esperança é de que o novo cenário sírio abra a brecha para uma Conferência Genebra 3. “Não estamos ainda numa negociação de paz. Estamos tentando ainda encontrar um caminho”, explicou Mistura. “Ao final de junho, vamos decidir o que faremos”, completou.