ONU: Mundo respirou aliviado, mas acordo sobre Síria não é suficiente para acabar com horror

Jamil Chade

16 de setembro de 2013 | 05h28

COMISSÃO LIDERADA POR BRASILEIRO TEM INDICIOS DE MAIS 5 ATAQUES QUIMICOS NA SIRIA  

PINHEIRO ALERTA QUE MAIORIA DAS MORTES OCORREU COM ARMAS CONVENCIONAIS

 

GENEBRA – O chefe dos investigadores da ONU para os crimes na Síria, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, confirma que recebeu indícios de que pelo menos outros cinco ataques com armas químicas ocorreram em cidades sírias, antes mesmo dos eventos do dia 21 de agosto e que gerou uma reação internacional. Em entrevista ao Estado, Pinheiro confirma que vai agora iniciar a investigação sobre os autores dos ataques realizados há um mês no subúrbio de Damasco. Uma vez identificados os autores, ele entregara a lista à ONU que, assim como em outros crimes, manterá o documento em um cofre para que eventualmente seja usado em tribunais internacionais. “Não há duvidas de que armas químicas foram usadas”, disse.

Hoje, os inspetores de armas químicas da ONU divulgam seu informe sobre esses ataques do dia 21 de agosto. Mas o estudo, ainda que aguardado por todo o mundo, não tratará conclusões sobre os autores.

Pinheiro agora assumirá essa responsabilidade e suas conclusões, possivelmente ainda neste ano, poderão ter profundas consequecias para o futuro do regime de Bashar Al Assad. Americanos acusam o governo de ter sido o autor dos ataques. Já os russos apontam que os rebeldes seriam os responsáveis.

Enquanto em Nova Iorque os inspetores apresentam suas conclusões, hoje em Genebra, Pinheiro apresenta por sua parte a sua versão do que está ocorrendo na Síria ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. Se o tema das armas químicas é importante, o brasileiro vai alertar à comunidade internacional que não se pode esquecer que grande parte dos crimes de guerra na Síria está ocorrendo com armas convencionais.

Para ele, o acordo atingido entre russos e americanos para destruir o arsenal químico de Assad no fim de semana é “positivo”. “O mundo respirou aliviado”, disse, por conta do ataque americano evitado. “Foi como a crise dos mísseis em Cuba”, declarou. Mas insiste que um “acordão de cessar-fogo” será a única forma de “parar esse horror”. Eis os principais trechos da entrevista:

P – Qual a mensagem que o sr. passará hoje à ONU?

R – Vamos atualizar o Conselho de Direitos Humanos sobre a situação na Síria. Nosso informe, porem, vai apenas até o dia 15 de julho. Nos vamos mencionar a questão das armas químicas. Ha indícios de que elas foram usadas. Mas nao sabemos nem por quem e nem os agentes usados. O que chama a atenção é que o debate sobre as armas químicas deixou de lado que grande parte das mortes ocorreu com armas convencionais. O debate sobre armas químicas é relevante. Mas não podemos perder o contexto mais amplo. A guerra ja entra em seu terceiro ano. Sao seis milhões de pessoas deslocadas, duas milhões delas em campos de refugiados. A privação dos direitos fundamentais é algo espantoso. Nossa mensagem será clara: houve uma falência em se chegar a um acordo. Não existe uma solução militar a esse conflito e ha um profundo desrespeito às regras de combate.

P – Neste fim de semana, Rússia e EUA chegaram a um acordo para destruir as armas químicas na Síria. Como o sr. avaliou o entendimento?

R – Duas potências com o poder de veto no Conselho de Segurança chegaram a um acordo. Um ataque foi evitado. Se isso vai abrir caminho para um acordo político, vamos ver. Mas foi um evento positivo, ainda que com seus limites. Um ataque foi afastado e se desarmou. Foi um pouco como a crise dos mísseis em Cuba. Só o futuro vai dizer se foi um acordo efetivo. Obviamente que a guerra continua e, como eu disse, grande parte das mortes ocorreu com armas convencionais. Mas pelo menos o mundo respirou aliviado.

P – Ha quem diga que Obama saiu enfraquecido com esse acordo.

R – Ninguém sai perdendo ou ganhando com esse acordo. Para a população da Síria, ninguém está interessado se Obama perdeu. O fato é que um ataque internacional teria conseqüências dramáticas.

P – Quais informações o sr. recebeu sobre o uso de armas químicas?

R – Tivemos acesso à inteligência americana e francesa. Entrevistamos pacientes, médicos e enfermeiras. Examinamos vídeos, relatórios médicos.

P – Hoje a ONU divulga hoje seu informe sobre os supostos ataques químicos de 21 de agosto. Mas não apontará quem seria o responsável. O sr. investigará os autores?

R – Nosso mandato inclui investigar e apontar os responsáveis. Vamos esperar esse informe e vamos depois verificar o que pode ser feito. Hoje, não apontamos o dedo para ninguém. Não ha duvidas de que armas químicas foram utilizadas. Em nossa investigação, ja recebemos indícios de outros cinco casos de ataques químicos, antes mesmo do evento do dia 21 de agosto. Mas eu insisto que temos de lembrar que o horror dessa guerra foi causado por armas convencionais. Por isso eu digo que, ainda estando satisfeito com o acordo entre EUA e Rússia aqui em Genebra, ainda precisamos de um “acordao” de cessar-fogo para que esse horror possa parar.

P – O que mais lhe chama a atenção entre os crimes?

R – Os bombardeios aéreos estão sendo contínuos em doze das quatorze províncias do país. Outro aspecto novo que registramos foi o fato de o governo estar promovendo cercos às populações e cidades como método de guerra. Isso impede o acesso até a alimentos e as conseqüências estão sendo devastadoras. Temos também visto ataques a hospitais, alem de uma radicalização dos grupos envolvidos no conflito, de ambos os lados. Entre os rebeldes isso também fica claro, com a execução de soldados capturados.

P – Com a experiência que o sr. tem em apurar crimes em outros conflitos, como o sr. compara o que está ocorrendo na Síria em um contexto histórico mais amplo?

R – E difícil fazer comparações. Mas que essa guerra ocorra desta forma em pleno século XXI é um escândalo. Os ataques aéreos a populações civis são algo delirante. Na Síria, ao contrario de Ruanda, existia uma sociedade estabelecida, um estado que funcionava, altos índices de educação , estrutura escolar bem estruturada e uma convivência secular, contidos os sectarismos.

P – Quais teriam sido os motivos que levaram a uma radicalização do conflito?

R – A questão entre xiitas e sunitas sempre existiu. Esteve sempre latente. Mas essa guerra hoje não é só mais somente pela democracia e pelos direitos humanos. Os seis primeiros meses desse conflito vimos uma ação tipicamente do grupo de Indignados, como tivemos na Espanha ou mesmo no Brasil. Mas, com a resposta repressiva do governo e a militarização da oposição, a guerra ganhou novo contexto.

P – O que significa isso em termos regionais no Oriente Médio?

R – Significa na prática a participação de outros governos. Existe um arco de apoio concreto aos rebeldes sunitas. Essa radicalização ocorre por conta de uma regionalização do conflito. Temos visto voluntários chegando para lutar mesmo da Europa e organizações ligadas à Al Qaeda. É uma ilusão achar que governos possam dar armas com recibos garantindo que não serão depois usadas por islamistas. So acredita nisso quem acredita em Papai Noel. Por isso temos insistido que existe uma responsabilidade dos governos que armam os dois lados que depois cometem crimes. Há uma responsabilidade de quem está ajudando. A radicalização vem da presença estrangeira. Sao PSP combatentes vindo mais de 20 países já envolvidos. Hoje, essa é uma guerra civil, mas sobre ele há um conflito regional e internacionalizado

P – Se não houver um acordo de paz, qual será a conseqüência disso tudo?

R – Se essa guerra não parar, os crimes só vão se agravar. Essa guerra está destruindo um pais e uma sociedade