ONU vira alvo e sofre número recorde de ataques

Jamil Chade

20 de agosto de 2014 | 09h12

GENEBRA – Quem sai ao resgate de milhões de pessoas pelo mundo agora precisa de ajuda. Dados divulgados ontem pela ONU revelam que nunca tantas entidades humanitárias, ongs, Cruz Vermelha e mesmo as Nações Unidas foram alvos de tantos ataques como nos últimos meses. Em 2013, 460 trabalhadores humanitários foram alvo de 251 ataques, com 155 mortes em missões, um recorde absoluto e que revela que a ideia de que as entidades vistas como neutras vivem uma séria crise.

Ontem, a ONU marcou o Dia Mundial da Assistência Humanitária, data que se comemora no dia da morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Em 19 de agosto de 2003, ele e mais 21 pessoas na sede da ONU em Bagdá foram alvos de um ataque terrorista. As mortes foram um divisor de águas nas Nações Unidas, que gozava de proteção e acreditava que não seria alvo de atentados por seu caráter de entidade neutra.

Uma década depois, o que a ONU constata é que a situação é ainda mais grave e que seu estatuto foi diluído de uma forma ainda mais perigosa. Em 2013, 155 funcionários internacionais em missões humanitárias foram assassinados, numa clara violação do direito humanitário internacional e em atos considerados como crimes de guerra. 171 funcionários ainda ficaram seriamente feridos e outros 134 foram sequestrados. 81 deles foram mortos apenas no Afeganistão, além de vítimas na Síria, Paquistão e Sudão.

Os números são duas vezes superiores ao recorde anterior, de 2012, quando 277 pessoas foram alvos de ataques.

Para 2014, a tendência mostra que o desrespeito a todas as regras internacionais continua. Até agosto de 2014, 79 funcionários humanitários tinham sido assassinados. Os ataques contra escolas da ONU em Gaza contribuíram para elevar o número das vítimas.

Impacto – Para a ONU, esses ataques ameaçam as operações da entidade em diversos locais do mundo e justamente onde a população mais precisa de ajuda. “Neste ano, nosso plano é de atender 76 milhões de pessoas em 31 países”, declarou Rashid Khalikov, diretora do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários. “As pessoas que realizam esse trabalho precisam ser protegidas”, disse.

“Está cada vez mais perigoso trabalhar em missões humanitárias hoje”, alertou a Comissária Europeia para Ajuda Humanitária, Kristalina Georgieva. “A cada mês, doze trabalhadores perdem suas vidas e mais de dez são sequestrados tentando ajudar aos demais”, disse.

A Cruz Vermelha também alerta que as mortes tem afetado sua capacidade de levar ajuda aos mais necessitados. No total 38 sírios e sete palestinos foram mortos desde o conflito na Síria. “Pedimos que todas as partes no conflito na Síria respeitem suas obrigações diante do direito humanitário internacional e respeitem os trabalhadores da Cruz Vermelha”, indicou um comunicado da entidade.

A ONU admite em informes internos que, para os grupos terroristas, todas essas entidades seriam “braços” da “ocupação Ocidental”, ou instrumentos de controle de potências. Mas a entidade vem alertando a governos que também precisam garantir que a entidade possa trabalhar em segurança. “Estamos sendo atacados tanto pelas autoridades sírias quanto as israelenses hoje”, declarou o informe.

“Um trabalhador humanitário morto é uma pessoa a menos que o mundo conta para salvar vidas”, declarou Valerie Amos, a responsável na ONU para Coordenar ações de emergência na entidade.

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