Os olhos do Maracanã

Os olhos do Maracanã

Jamil Chade

01 Julho 2014 | 09h30

Narradores contam a cegos nos estádios cada lance das partidas da Copa

 

Rio – No meio da multidão do Maracanã, das cores e do festival de imagens no jogo entre Equador x França, um grupo de cegos consegue acompanhar o jogo como se estivessem vendo cada lance, cada drible e colocando as mãos na cabeça por um gol perdido como qualquer outra pessoas. Sem conseguir ver, a experiência de presenciar um jogo é resultado de pura emoção ao ponto de poder até mesmo acompanhar o momento de levantar para fazer a ola.

Mas isso só é possível graças a uma narração especialmente preparada para o grupo de deficientes visuais e que conta, a cada segundo por meio de um transmissor de rádio, tudo que está acontecendo no campo e nas arquibancadas. Eles são os olhos de cegos que, graças a um projeto da ong Urece Esporte, começam a poder ir ao estádio. E justamente na melhor Copa em décadas.

Gabriel Mayr e Eduardo Butter são dois dos narradores voluntários que contam, dentro do Maracanã, cada um dos lances. Suas palavras são transmitidas por uma frequência de rádio e basta os cegos sintonizarem na estação correta e podem estar em qualquer lugar do estádio, inclusive no meio de uma barulhenta torcida equatoriana.

Uma primeira impressão poderia levar uma pessoa a pensar que não existe motivo para uma narração especial, já que locutores de rádios tradicionais fazem justamente o mesmo trabalho, contando a quem não está vendo o jogo cada lance e transportando o ouvindo para dentro da partida.

Mas os envolvidos com o projeto e mesmo os cegos alertam que não é a narração tradicional que os serve. No fundo, ela deixa de lado questões e descrições fundamentais de um jogo.

A explicação é simples: quem escuta um locutor já foi alguma vez na vida a um estádio ou pelo menos viu os lances pela televisão. No caso dos cegos, eles não tem qualquer referência e tudo precisa ser explicado, do movimento da bola, ao material usado nas camisetas, do banco de reservas a uma eventual ola da torcida.

“Não podemos gritar gol como um narrador por vários segundos”, explicou Mayr, que foi treinado por meses para fazer a audiodescrição. “O que temos de explicar naquele momento é justamente como foi o lance, para onde o artilheiro correu, quem ele abraçou, como está a reação da torcida”, disse Butter.

Essa não é a única diferença. Ao contrário de uma rádio tradicional, os narradores não podem dizer que um drible foi “lindo” e nem qualificar o jogo. “Isso compete a cada um que está escutando. Não podemos fazer juízo de opinião”, disse Mayr.

Até a ola é narrada. “Quando os cegos escutam o barulho da torcida, não sabem se é uma briga. Então temos de dizer que a ola está sendo feita e onde está indo”, explicou Butter. O narrador conta como foi surpreendido em uma ocasião quando se deu conta que os cegos imaginavam que o banco de reservas era um banco de madeira e reto. “Eles não imaginavam que era uma poltrona”.

Emoção – A narração ainda coloca por terra a ironia de Luis Fernando Veríssimo, que aponta que os locutores são fundamentais para que a torcida saiba se um jogo foi bom ou ruim.

Entre os cegos, a surpresa diante do novo serviço foi a disparidade entre o que as rádios colocam como a emoção do jogo e de fato o que os narradores estão explicando. “Alguns deles nos vieram dizer que, quando colocavam na rádio para escutar Bélgica x Rússia, a impressão era de que seria um jogo emocionante. Quando mudavam de frequência e nos escutavam, tinham a impressão de que o jogo estava ruim. Tentamos ser mais fieis ao que está acontecendo em campo”, explicou Mayr.

Os coordenadores do projeto admitem que tentam equilibrar o que é emoção e o que é a narração isenta de comentários.

Anderson Dias, um dos cegos que estava no estádio ontem, admite que as vezes alterna a locução especial para a da rádio para dar um “emoção extra”. Mas admite que o gol sai primeiro na narração preparada para os cegos.

O Estado ouviu parte do jogo com a narração e os detalhes vão desde o suor de um jogador, do fato de que alguns deles levam a gola da camisa para cima e uma descrição de onde estão cada uma das torcidas e o que vestem.

Entre os narradores, a satisfação é enorme quando eles conseguem ver que os cegos levantaram as mãos ao mesmo tempo que o resto da torcida. “Isso significa que eles podem acompanhar os lances como qualquer um no estádio e isso é muito especial”, declarou Butter.

A Fifa vai agora deixar os seis transmissores portáteis e as antenas para o Brasil e a esperança dos coordenadores do projeto é de que o mesmo sistema comece a funcionar em jogos do campeonato brasileiro e estaduais. Mas eles enfrentam um obstáculo: precisam ainda de uma autorização da Anatel para liberar a frequência.

Dias, que perdeu a visão com três anos, admitia que ainda falta maior treinamento para os narradores e que ele espera um dia ouvir também a locução com emoção. Mas não disfarça a emoção, principalmente quando levantava as mãos para acompanhar a ola que havia sido alertada pela audiodescrição. “Agora nós também podemos vir aos estádios”, comemorou.