“Por favor, não me mandem para a Síria”

“Por favor, não me mandem para a Síria”

Jamil Chade

03 Setembro 2015 | 05h38

 

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2:35 am de quinta-feira. Um trem em um silêncio pesado. Como eu relatei no post anterior durante minha viagem desta madrugada com refugiados, um trem que passa pelas fronteiras da Europa e pelas fronteiras da humanidade.

 

Repleto de refugiados, o local é uma mistura de traumas, crianças, homens exaustos e até alguns que visivelmente tem pesadelos.

 

Logo depois de eu publicar ontem o primeiro trecho dessa viagem, o que todos temiam naquele trem ocorreu. Os vagões pararam na estação de Stuttgart e pelo menos 30 policiais fortemente armados entraram nos vagões.

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A cada um que poderia parecer um refugiado, a mesma pergunta : « por favor, apresentem documentos imediatamente». Os que estavam dormidos eram acordados com os policiais alemães os sacudindo.

Os olhos de alguns ao se dar conta que era a polícia era de terror. Talvez lembrando do que representa a brutalidade da polícia de Bashar Al Assad. Talvez temendo que aquilo significasse prisão. Mas, acima de tudo, temendo que fossem deportados, depois de já terem gasto milhares de euros ara chegar até a ali e terem arriscado suas vidas.

 

« Por favor, não me mandem para a Síria», pedia uma senhora, com sua filha deitada numa mesa do trem.

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Uma hora depois, mais de 50 refugiados foram levados pelos policiais que, ao Estado, garantiram que a operação era para « apenas registrar todo mundo ».

 

Esse registro, porém, significa que aquelas famílias não escolherão mais para onde irão. Viverão em cidades determinadas pelo governo alemão e, em muitas vezes, longe de algum primo ou parente que já esteja na Alemanha.

 

Muitos choravam, uma vez mais sem saber o que ocorreria com suas vidas, deixadas à mercê do acaso e de autoridades. « Estamos sendo usados politicamente por esses governos », atacou um dos refugiados com quem eu conversei ainda na cidade de Passau.

 

Quando o trem voltou a circular, quem ficou respirou aliviado. Mas sem poder dizer até quando uma nova ameaça a seus planos apareceria. Pela janela, a imagem de quem estava de fora era a de que tinham uma vez mais perdido o trem, ainda que tivesse como destino o desconhecido.

 

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