Quando é que uma mulher comandará a ONU?

Jamil Chade

04 de novembro de 2015 | 12h22

Ao longo desta semana, este espaço será uma das vozes do  movimento #AgoraÉQueSãoElas. Ocuparão este blog mulheres do mundo acadêmico, grandes jornalistas, jovens promessas, refugiadas e cantoras.

Hoje o dia é de Viviane Bianco, estudante de mestrado de Saúde Global na Universidade de Genebra.

 

QUERO FALAR DO ÓBVIO

 Por Viviane Bianco

Quero falar do óbvio. Toda mulher já foi vítima de agressão verbal. Algumas, infelizmente, de agressão física. Não quero, no entanto, usar meu espaço para narrar frases absurdas ou piadas absolutamente sem graça que já ouvi. Quero, apenas, falar do óbvio que, surpreendentemente, muitas vezes, não é tão claro.

Vivo, atualmente, em Genebra, onde faço parte de um programa de mestrado em saúde global. No curso, somos cerca de 25 alunos. Desses, 3 homens. Muitos poderiam alegar que o tema não seja do interesse do público masculino. Discordo, mas posso dar outro exemplo. Ano passado, em um curso de francês realizado em Grenoble, na França, éramos em torno de 18 alunos. Desses, cerca de 4 homens. Me lembro, inclusive, de, em uma das discussões em sala, ouvir o menino do Qatar dizer: “mulheres não devem fazer parte da política”. Naquele dia, havia apenas 2 meninos. Minha resposta, movida de raiva e fúria, concentrou-se em mostrar a quantidade de mulheres ali e a nossa imensa determinação de qualificar-nos e tornar-nos excelentes profissionais. Mais uma vez, o óbvio.

Uma matéria publicada pelo jornal britânico The Guardian, em janeiro de 2013, mostrou que na, na Inglaterra, as mulheres estão dominando as universidades. De acordo com a publicação, no outono daquele ano, mulheres estavam 1/3 mais propensas a iniciarem seus estudos universitários do que homens. Em 2012, a Forbes já havia mostrado o mesmo fenômeno nos Estados Unidos.

Infelizmente, essa tendência, apesar de encontrada em diversos países do mundo, ainda não é global. Em alguns lugares da África, do Oriente Médio e, sim, do Brasil, mulheres são proibidas de frequentar escolas, seja direta ou indiretamente. Casamentos forçados ainda quando crianças, gravidez precoce, violência, tudo isso afasta meninas de centros de ensino, que poderiam oferecer-lhes educação e esclarecimento para lutarem contra os problemas que as afligem.

Em uma reunião na ONU, no primeiro trimestre deste ano, ouvi alguém falar que já estava na hora de a Organização ter uma mulher como secretária-geral. Chego a achar engraçado como essas questões são tratadas, como se precisássemos de uma espécie de política afirmativa para ocupar cargos importantes. É óbvio que já está na hora de uma mulher ser secretária geral. Ou melhor, já passou da hora. Não simplesmente porque é importante para uma organização como a ONU dar o exemplo, mas porque temos disposição e qualificação o suficiente.

Não entendo como não valorizar uma mulher. Somos responsáveis por gerar vidas, de mulheres e de homens. Somos responsáveis por garantir que nossos filhos se tornem adultos saudáveis. O cuidado que temos durante a gravidez pode influenciar em toda uma vida adulta. De acordo com a OMS, até mesmo as chances de um adulto desenvolver diabetes estão relacionadas ao seu peso no momento do parto, que em muito reflete o acesso à saúde e as condições que cercaram a mulher durante os 9 meses de sua gravidez. A mulher que sofre violência durante esse período e é privada de seus direitos mais básicos não terá apenas um bebê com maiores chances de contrair doenças, mas esse mesmo filho poderá conviver, pelo resto de sua vida, com problemas de saúde. Mais um fato, óbvio.

Na minha casa, minha mãe sempre foi a que mais trabalhou, a que melhor ganhou. Graças ao seu esforço, tive uma boa educação e acreditei poder competir, de igual para igual, com homens. Fiz diversas coisas que, supostamente, “meninas não fazem” e, mesmo assim, em muitos momentos, me senti ameaçada ou com medo.

Homens continuam acreditando na força e violência física como forma de mostrarem-se superiores às mulheres. Em pelo século XXI, em que humanos são substituídos por máquinas, em que robôs são capazes de carregar mais peso do que dezenas de homens reunidos, em que nossos alimentos são embalados em latas e não mais precisamos, literalmente, matar um leão a cada dia, priorizar a força física chega a ser, na minha opinião, uma grande fraqueza mental e intelectual.

Em 1979, a Assembleia Geral da ONU adotou a convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher. De acordo com a mesma, “a discriminação contra a mulher viola os princípios da igualdade de direitos e do respeito da dignidade humana, dificulta a participação da mulher, nas mesmas condições que o homem, na vida política, social, econômica e cultural de seu país, constitui um obstáculo ao aumento do bem-estar da sociedade e da família e dificulta o pleno desenvolvimento das potencialidades da mulher para prestar serviço a seu país e à humanidade.

Quase 40 anos se passaram desde a convenção e ainda precisamos lutar pelos nossos direitos e pelo nosso espaço na sociedade. Políticas foram incorporadas tanto no cenário internacional quanto no cenário doméstico, mas, em 2015, ainda discutimos a mutilação genital feminina, a violência doméstica, a diferença salarial entre gêneros e a falta de presença feminina em posições de liderança.

A mulher precisa e merece ser valorizada e reconhecida. Isso é óbvio.