Rosell e Teixeira

Jamil Chade

27 de janeiro de 2014 | 10h37

O esquema de Sandro Rosell usou a parceria com a CBF para conseguir um comprador para uma de suas empresas, a Bonus.

A companhia tinha como meta enviar olheiros para a África e América Latina para buscar jovens craques que, por sua vez, seriam oferecidos para a academia Aspire, no Catar. Um dos patrocinadores do projeto da Bonus era a Nike, empresa que teve Rosell como seu representante na América Latina.

Para ser presidente do Barcelona, em 2010, Rosell precisaria dissolver parte de seus negócios, justamente para não gerar conflito de interesses.

Para se desfazer da empresa, a forma encontrada por Rosell foi a de vender justamente para a Dahall Al Baraka Group, a empresa que mantinha por meio de sua subsidiária ISE os direitos da seleção.

Oficialmente, Rosell anunciou que havia feito a venda no dia 23 de julho de 2010. Mas, naquele momento, o único que havia era um contrato de compromisso de compra. A transferência da empresa ocorreria apenas em 2011 e o pagamento seria recebido no final do ano, graças aos jogos da seleção.

As empresas ligadas a Rosell ainda teria sido usada para outros fins. A indenização milionária imposta sobre Ricardo Teixeira e João Havelange para arquivar o maior caso de corrupção da história da Fifa foi paga justamente por uma empresa ligada aos sócios de Sandro Rosell.

Segundo a Justiça suíça, Teixeira e Havelange fraudaram a entidade máxima do futebol em R$ 40 milhões entre 1992 e 2000 por meio de pagamentos de propinas da ISL, a empresa que vendia direitos de transmissão para a Copa de 2002 e 2006.

O caso foi mantido em sigilo por anos e os cartolas brasileiros pagaram uma multa de US$ 2,45 milhões como devolução dos recursos e como forma de encerrar o caso de forma amistosa com a Fifa. O acordo mantinha seus nomes em sigilo em troca do dinheiro. Mas o sigilo não durou e recursos nos tribunais em Lausanne conseguiram a liberação da documentação.

Dados obtidos pelo Estado revelam que a empresa que fez a gestão para a devolução do dinheiro na forma de multas foi a Bon Us SL. A empresa foi quem depositou os US$ 2,5 milhões do acerto entre Teixeira, Havelange e a Fifa. O dinheiro foi para a conta de Peter Nobel, o advogado pessoal de Joseph Blatter, presidente da Fifa, quem repassou o dinheiro à instituição. Quatro dias depois, mais US$ 100 mil foram repassado de um banco em Andorra para Nobel, supostamente como honorários de advogados.

O presidente da Bon Us não é declarado em documentos oficiais. Mas ela aparece como acionista da sociedade CO-INVEST SP. Z O.O. registrada na Polônia e que tem como um de seus sócios Joan Besoli, sócio por sua vez de Rosell na Comptages SL, o escritório que gestionou o pedido de Teixeira para ser residente de Andorra.

Novos documentos oficiais do governo de Andorra agora revelam que a empresa que fez o pagamento da indenização em nome dos brasileiros foi, dois anos depois, liquidada por membros da família Besoli, sócios de Rosell e gestor contratado por Teixeira.

Segundo o Boletim Oficial do Principado de Andorra do dia 7 de março de 2012 obtido pelo Estado, a Bon Us é anunciada como em liquidação e a pessoa designada para o trabalho é Jordi Besoli, irmão do sócio de Rosell.

O irmão de Jordi, Joan, é conselheiro de Finanças justamente da cidade onde Teixeira pediu residência em Andorra, Sant Juliá.

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