Seleção brasileira a e sindrome de time pequeno

Jamil Chade

27 Maio 2012 | 11h33

HAMBURGO – Há doze anos, quando comecei a trabalhar na Europa, era praticamente impossível ver uma pelada de futebol ser disputada sem que pelo menos um dos “jogadores” levasse vestido a camisa da seleção brasileira. Mas nos parques europeus nesta primavera no Velho Continente, confesso que praticamente não vi camisas da seleção brasileira entre os jovens, seja em Hamburgo,  Budapeste, Barcelona e nem mesmo nas proximidades de minha casa em Genebra. Confesso também que deixei de usar a camisa da seleção nesses “amistosos”, trocando por uma da seleção palestina…

Enfim, camisas com nomes nas costas como Messi, Cristiano Ronaldo, Drogba e outros craques parecem ser mesmo as preferidas. Confesso também que não vi pelos parques e campos improvisados nenhuma camisa do Santos, com o nome Neymar nas costas.

Nada disso é por acaso e o auge disso foi o que ocorreu do jogo da seleção no sábado, em Hamburgo. Os dinamarqueses agiram como se fossem eles os favoritos, ou pelo menos aqueles com mais experiência.  Levaram um susto. O time brasileiro, apesar de ter uma equipe olímpica em campo, de estar sob pressão e de não repetir resultados do passado, assumiu a iniciativa do jogo e partiu para cima, com personalidade.

O próprio tecnico Mano Menezes não esperava pela reação dos dinamarqueses, que entraram em campo na condição de um time que havia terminado a eliminatória da Eurocopa em primeiro lugar.

A situação permitiu que o Brasil transformasse o susto em gols. Mas ela também revela uma outra dimensão que, pelo menos aqui na Europa, poucas vezes foi tão explícita: a de que o Brasil é apenas mais uma seleção no mundo. Colocar o time em campo, com a camisa amarela, não é sinônimo nem de ver o adversário tremendo e nem de arquibancadas lotadas.

Entre cartolas, não são poucos que apontam o fato de que o Brasil deixou de ser favorito automático em torneios e jogos. Na semana passada, Michel Platini insistia que os favoritos para vencer o Mundial de 2014 são as seleções europeias. O alemão Breitner, em uma outra entrevista, chegou a falar em “encruzilhada” para o futebol brasileiro e que o time estava “sem direção”.

Entre os jogadores da seleção, não são poucos os que se queixam dos comentários que recebem de colegas estrangeiros em seus clubes na Europa. “É chato ficar escutando esses comentários”, afirmou o capitâo Thiago Silva. “Obviamente que ficamos magoados, mesmo que eles são feitos de uma forma que pode parecer uma brincadeira”.

Mas as evidências são claras e mesmo Leandro Damião deixa transparecer que até mesmo os jogadores sabem que a posição do Brasil não é a de destaque no cenário internacional hoje. “Nosso objetivo é de voltar a ser a seleção que todos respeitavam e que era a primeira no mundo”, disse. A “falta de respeito” da Dinamarca os custou três gols em 40 minutos. Mas, no caso de uma seleção com craques e de maior porte, essa falta de respeito pode ter um resultado bem diferente.

Só uma atuação convincente contra México, Estados Unidos e Argentina e um desempenho de alto nível nos Jogos Olímpicos poderá começar a resgatar o status do futebol brasileiro e sua admiração. Seja nas arenas sofisticadoa da Europa, seja nas peladas disputadas entre garotos nos parques espalhados pelo continente.