Seleção da Espanha abre crise política na África

Seleção da Espanha abre crise política na África

Jamil Chade

14 de novembro de 2013 | 21h20

Time é acusado de estar legitimando um dos regimes mais brutais da África

 

 

A seleção espanhola de futebol joga neste sábado mais um amistoso para sua preparação para a Copa de 2014. Nada de anormal, se não fosse o fato de que a Roja irá para Guinea Equatorial, numa partida que está sendo acusada pela oposição em ambos países e por ativistas de direitos humanos como um instrumento para legitimar o regime de um dos ditadores mais cruéis e corrupto da África: Teodoro Obiang Nguema Mbasogo.

O regime de Obiang controla o país há 34 anos e, pela primeira em sua história, uma seleção europeia visitará seu reinado. Para um dos líderes da oposição, Wenceslao Mansogo, o ditador quer dar a impressão internacional de que o país vive um clima de normalidad. “Isso é uma vergonha para a Espanha. Estão fazendo publicidade para Obiang”, atacou. Defensores de direitos humanos em dezenas de outros países também  se declararam contrários ao jogo. Na África, grupos políticos também denunciaram a mega promoção que Obiang fará do jogo.

Quatro partidos políticos espanhóis chegaram a pedir que o amistoso fosse cancelado. “Um ditador está sendo endossado por um time campeão do mundo”, declarou Gaspar Llamazares, um dos líderes da oposição na Espanha. O motivo é o temor de que a seleção campeã do mundo seja usada como uma peça de propagando para um ditador acusado de corrupção, de não permitir a liberdade de expressão, de não garantir acesso à Justiça e de punir seus adversários políticos com anos de prisão e tortura.

O mal-estar chegou até os jogadores, que exigiram que não sairiam em fotos ao lado do ditador, educado justamente na Espanha. O pedido vem tarde demais. Pela cidade, posters já foram colocados com a imagem do presidente ao lado de sua seleção.

Já a Federação Espanhola de Futebol insiste que a partida jamais teve o envolvimento do governo. Mas as suspeitas são de que Madri levará um cheque de 5 milhões de euros por passar por um dos países mais pobres do mundo. O ministro dos Esportes do país africano, Pascual Asue, garantiu que nenhum centavo será pago aos espanhóis e que o jogo está ocorrendo por conta da “amizade entre os países”.

Mas o governo espanhol, acusado de estar promovendo uma aproximação com o país rico em petróleo, insiste que não teve qualquer relação com a organização do amistoso.

Se os objetivos políticos de fato não existem e se também não há uma compensação financeira, ativistas de direitos humanos alertam que, no mínimo, a decisão dos campeões do mundo de jogar para Obiang mostra a “falta de sensibilidade” dos dirigentes do futebol diante do sofrimento de populações inteiras.