Sem Diplomacia

Jamil Chade

29 de abril de 2015 | 10h57

Bem-vindos! A partir de hoje, inauguro este blog com o objetivo de trazer ao leitor brasileiro um pouco dos bastidores da política internacional, das negociações de paz e da política externa brasileira. E sem diplomacia.

Aqui, uma ditadura será chamada de ditadura. O populismo será denunciado e a hipocrisia internacional não será tolerada. Uma pessoa morta pela fome não será tratada como uma fatalidade, mas como um assassinato, em um mundo que tem alimentos para fornecer a dois planetas inteiros.

Quando um barco afundar e imigrantes morrerem como ratos nos porões, não haverá álibi para os responsáveis políticos. Quando um motorista de um embaixador for buscar um amigo do diplomata no aeroporto ou fazer compras, usando dinheiro público, será chamado de desvio de verbas.

Enfim, este será um espaço para a denúncia. E sem diplomacia.

Este blog será ainda um convite a percorrer comigo os corredores da ONU. Já são quinze anos consecutivos que, diariamente, entro pelos portões da sede das Nações Unidas em Genebra para me deparar com heróis silenciosos, corruptos, políticos vaidosos e as mentiras descaradas de governos – sejam eles ditaduras ou democracias. A ONU não será o único alvo desse espaço.

Nos próximos meses, o leitor será convidado a conhecer um pouco de como decisões de política externa são tomadas, descobrir os atritos existentes nos bastidores e viver as entranhas da política internacional. Algo como se pudéssemos vasculhar o que está nas malas diplomáticas que circulam pelo mundo. Se elas tem um motivo claro para existir, essas malas também revelam muitas histórias.

Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a mala diplomática que ligava Nova Iorque à cidade de Londres trazia, de forma inviolável, algo que era considerado como fundamental para a sobrevivência do líder britânico Winston Churchill: charutos cubanos.

Como o próprio título do blog escancara, serei um “mala”. Não se trata, como diria Nelson Rodrigues, de vaiar até minuto de silêncio. Mas parte da motivação deste blog é a de questionar e abrir o debate. Sem diplomacia.

Quanto ao Brasil, o objetivo é o de contribuir para que haja um debate democrático sobre os caminhos da política externa do País. O artigo 4º da Constituição de 1988 aponta como os princípios a serem utilizados pelo Brasil em sua política externa a garantia da independência nacional, a prevalência dos direitos humanos e a defesa da paz, entre outros. Mas será que a Constituição está sendo respeitada ?

Se de fato vivemos uma democracia, não são apenas os atos do Congresso, a corrupção na Petrobras e a vida dos ministros que devem ser fiscalizados pelos cidadãos. As opções da política externa brasileira também precisam ser conhecidas, explicadas e justificadas. E sem diplomacia.

Num mundo em plena transformação e vivendo uma série de crises simultâneas – ambiental, econômica, de segurança -, entender opções diplomáticas é, acima de tudo, entender nossa posição no mundo. Convido a todos para essa viagem que não tem outro objetivo senão o de criar transparência, despertar a atenção e ajudar a preparar a insurreição das consciências. Sem diplomacia.