Sem licitação, BID deu contrato de R$ 140 mil para a Copa no Brasil a genro do rei da Espanha

Sem licitação, BID deu contrato de R$ 140 mil para a Copa no Brasil a genro do rei da Espanha

Jamil Chade

14 de janeiro de 2013 | 19h09

 

Acusado de corrupção, um dos membros da família real da da Espanha, Iñaki Urdangarin, fechou um contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) tendo em vista a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O Banco admitiu ao Estado que pagou R$ 140 mil à empresa da nobreza espanhola, sem licitação, para “a analisar opções de apoio ao governo brasileiro frente à preparação da Copa do Mundo 2014”.

Iñaki Urdangarin, que é genro do rei da Espanha, está sendo investigado na Espanha por ter usado uma fundação e empresas que criou para desviar milhoes de euros em dinheiro público, envolvendo até mesmo sua mulher, uma das princesas espanholas e filha do rei Juan Carlos. O caso fez a popularidade da família real espanhola desmoronar aos seus piores índices desde o fim do regime de Franco e, neste mês, contas do instituto presidido por Urdangarin foram bloqueadas em paraísos fiscais.

Agora, o jornal El País traz revelaçoes de um dos sócios do genro do rei, o empresario Alex Sánchez Mollinger, à Justiça. Segundo ele, Urdangarin obteve um contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento no Brasil. “O Mundial de futebol de 2014 foi dado ao Brasil e havia o interesse de desenvolver um caminho de como aproveitar a Copa para gerar desenvolvimento e obter valor a partir do evento”, explicou Mollinger no processo.

O sócio do suspeito admitiu que ele e Urdangarin chegaram a viajar ao País. “Estivemos no Brasil e nos pediram uma extensão para os Jogos Olímpicos de 2016. Foi Urdangarin quem trouxe o contrato, repartindo o dinheiro com base nos trabalhos realizados”, insistiu.

Investigaçoes na Espanha revelaram que sua fundaçao e empresas deram notas falsas, camuflou suas contas e evadiu impostos durante anos, enquanto supostamente anunciava que trabalhava para promover o desenvolvimento a partir do esporte.

Plano – No caso dos contratos no Brasil, o procurador anti-corrupção da Justiça de Las Palmas, onde o caso está sendo julgado, ainda não decidiu se existem provas suficientes a partir das novas revelaçoes para indiciar Urdangarin por crimes fiscais.

A reportagem do Estado pediu esclarecimentos ao escritório do BID no Brasil sobre a natureza dos contratos, os valores envolvidos e a finalidade dos acordos com a empresa do genro do monarca espanhol. A reportagem também questionou o banco se o contrato foi cumprido pela fundaçao do membro da família real. O escritório do BID em Brasília só respondeu depois de receber um sinal verde de Washington, sede da instituição.

Segundo a assessoria do Banco, “o BID contratou a Numa Capital em 2009, para analisar opções de apoio ao governo brasileiro frente à preparação da Copa do Mundo 2014”.

Questionado sobre o serviço prestado pela empresa, a resposta foi a seguinte: “Os termos de referencia incluíam, entre outros, a preparação de um plano plurianual 2009-2014, para consideração das autoridades brasileiras diante dos preparativos para a Copa do Mundo 2014 e um relatório final com sugestões sobre os arranjos institucionais para as tarefas de monitoramento das atividades preparatórias para a Copa”.

De acordo com o BID, a Numa Capital “cumpriu com o estipulado no contrato”, que rendeu US$ 70 mil ao genro do rei.

Questionado se houve licitação, o banco deixou claro que não. “Segundo nossas regras, pelo valor da contratação, não era necessária licitação internacional”, indicou a assessoria.

Segundo o site do BID, o portfólio do banco em projetos no Brasil chega a US$ 9 bilhoes, com parte de suas açoes justamente nas cidades que receberão os jogos da Copa de 2014.

 

 

Jamil Chade é correspodente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. « O Mundo Não é Plano » (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

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