Silêncios que gritam

Jamil Chade

07 de novembro de 2015 | 07h42

Mais uma vez, este blog abre o espaço para as mulheres e adere à iniciativa ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬

Hoje, ele foi ocupado pela força da jornalista Letícia Duarte

 

Silêncios que gritam

No ano em que troquei o jornalismo diário por um voluntariado nos confins da África, em 2006, planejava mais do que dar aulas de português em uma escola pública.

Vendo a situação das mulheres em Mangunde, o povoado no interior de Moçambique onde eu morava, tive a ideia de reunir um grupo de alunas para discutir questões de gênero.

Assim como na maioria das escolas do país, as meninas eram minoria ali, numa proporção de até 30 meninos para quatro ou cinco meninas em cada sala. Em uma região de domínio patriarcal, as mulheres tinham obrigação de andar sempre atrás de seus maridos, por uma questão de hierarquia. Os homens batiam (e continuam batendo) sem pudores em suas companheiras – fossem elas quantas fossem, num território poligâmico. Quando questionados por alguém de fora, eles encerravam qualquer discussão dizendo que estavam no seu direito: “eu comprei essa mulher”, era a resposta mais comum, numa referência ao lobolo, o dote do casamento.

Incomodada com aquelas cenas, convidei as meninas para conversar. Propus que criássemos um espaço para falar sem censura sobre qualquer assunto que pudesse interessá-las. Empolgada, já sonhava em criar uma pequena célula feminista no interior da província de Sofala, questionando as injustiças e a opressão que elas sofriam cotidianamente, num ambiente em que mulheres e cabras frequentemente ocupavam o mesmo nível hierárquico.

– E então, meninas, agora que estamos só nós, que assuntos vocês gostariam de discutir? – perguntei, ansiosa, no primeiro encontro.

$Em silêncio, pensava se gostariam de falar sobre as dificuldades que enfrentavam para estudar, sobre os rumores comuns em todo o país de assédio dentro das próprias escolas, com professores propondo troca de notas por favores sexuais. Mas não foi isso que apareceu quando levantaram a mão.

– Como agradar um homem!? – sugeriu a primeira.
– Como conseguir um bom marido!? – emendou outra.
– Como ser uma boa esposa!? – gritou uma terceira.

Foi naquele momento que percebi como era ingênua minha pretensão. E como os processos culturais que definem os papéis sociais de homens e mulheres são mais complexos do que gostaríamos. De tão imersas na própria cultura da desigualdade, aquelas adolescentes sequer cogitavam que poderiam reivindicar um outro papel para si próprias. Com a desigualdade naturalizada, queriam apenas desempenhar da melhor forma as tarefas que a sociedade lhes delegara. Acabei nunca marcando uma segunda reunião para o grupo, mas a reflexão que aquele encontro desencadeou ainda me acompanha.

Voltei a pensar nessas lições moçambicanas nos últimos dias, quando a temática da violência contra a mulher ressurgiu como polêmica no espaço público brasileiro. Depois de a menina Valentina ser alvo de uma enxurrada de comentários pedófilos na internet (“Quem nunca queria estuprar uma criança?”), depois de a redação do Enem chamar atenção para o problema e ser tachada de “ideológica” ou desimportante por tanta gente. Se aqui aparentemente temos maior igualdade de gênero do que em Moçambique, por que ainda temos duas brasileiras espancadas a cada cinco minutos? Ou um estupro a cada 11 minutos?

Por mais que tenhamos avançado na luta por direitos humanos, a violência contra a mulher continua a ser reproduzida no nosso dia a dia por uma lógica perversa. De tão naturalizadas, muitas violações acabam banalizadas.

De tão banalizadas, deixam de ser questionadas pelas próprias vítimas, como se se sentissem na obrigação de cumprir o seu papel _ como aquelas estudantes de Mangunde. Assim como países colonizados forjaram sua cultura com o crivo do colonizador, o pensamento feminino também acabou “colonizado” pelo machismo, tornando mais árdua a tarefa de romper modelos arraigados. O mais cruel é que, ao tolerar agressões sofridas por se acharem no dever de suportá-las, ou censurar suas próprias condutas para tentar se adequar a expectativas sociais, mulheres involuntariamente contribuem para reproduzir o sistema de violações.

E aí quando uma mulher é assediada na rua, todo mundo começa a relativizar: “ah, não foi nada demais, era um elogio”. Ou então, quando o cara tenta beijá-la à força, ninguém se espanta: “ah, são os instintos masculinos”. Ou então, quando alguém é estuprada, botam a culpa na saia curta.
Como chegamos a esse ponto?

Se o caminho é longo, damos um passo nessa direção a cada insulto tolerado. E, principalmente, a cada silêncio engasgado. A cada vez que o medo encolhe a indignação. Até que a vítima desaprende a gritar, por achar que a violação é a regra. Aqui, em Moçambique, ou em qualquer canto do mundo.

#AgoraÉQueSãoElas

 

Letícia Duarte é repórter especial do jornal Zero Hora e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – leticia.africa@gmail.com