SÍRIA ABRE QUESTÃO SOBRE OS LIMITES DA HUMANIDADE

SÍRIA ABRE QUESTÃO SOBRE OS LIMITES DA HUMANIDADE

Jamil Chade

30 de junho de 2012 | 09h29

“O inferno está vazio. E os demônios estão todos aqui!” A citação faz parte da Tempestade, de Shakespeare. Mas bem poderia ser uma declaração de um simples morador de uma cidade síria. Enquanto a comunidade internacional pena em chegar a um acordo sobre como lidar com a situação na Síria, o país não apenas vive uma guerra pelo poder, mas um verdadeiro massacre da população, com mais de 15,8 mil mortos em 16 meses e um drama que chega a colocar em questão o significado da palavra humanidade.

Em seu recente relatório sobre a situação na Síria, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro traz um cenário que desafia qualquer valor ético. A lista de torturas descritas no documento da uma dimensão do aparelho de repressão. Soldados simulam execuções, enquanto o uso de choques elétricos, inclusive nas genitais, chicotes e barras de ferro são instrumentos recorrentes. Outras torturas são direcionadas aos islamistas que, em posição de súplica, são obrigados a imitar cachorros, arrancar a barba e declarar: “não há outro Deus que não seja Bashar”.

As crianças não estão poupadas e menores de até dez anos estão nas prisões sendo torturados para admitir que seus irmãos mais velhos ou pais estão envolvidos em grupos armados. Muitas crianças ainda morreram por conta da recusa do governo de autorizar o atendimento médico, enquanto escolas foram transformadas em centros de operações.

As descrições de estupros mostram que a prática também é recorrente pelas forças do governo. Uma testemunha indicou que, em Baba Amr, entre 40 e 50 homens entraram em sua casa e estupraram sua mulher e duas filhas, obrigando-o que olhasse para a cena. Depois, foi a vez do pai ser violado na presença do restante da família. Muitas garotas tem optado por abandonar as escolas, enquanto outras são simplesmente assassinadas pelo restante da família após serem estupradas para evitar que todo o grupo passe a ser discriminalizado.

As violações por parte da oposição também seriam de uma escala importante. Soldados, colaboradores do regime, milíicias Shabbiha ou meros suspeitos tem sido executados. “Muitos soldados (dos rebeldes) entrevistados disseram à comissão que nunca ouviram falar em direito humanitário” e que o que prevalescia era “olho por olho”.

Sobre o massacre da região de Hula, em 25 de maio, a descrição também aponta para um cenário de uma terra sem lei, e sem moral. Tudo teria começado com uma manifestação anti-Assad após orações no vilarejo de Taldou. O governo atacou e isso foi seguido por uma resposta de grupos armados. Segundo a investigação, muitos morreram já nesse episódio. Mas o horror não terminaria ai. De acordo com a investigação, o bombardeio do governo continuou pelo dia e, já durante a tarde, o número de vítimas chegava a 50, grande parte da familia Abdulrazzak que vivia 500 metros de uma barreira do exército, próximo a um hospital e companhia de água controladas pelo regime. Outros 15 membros da família Al-Sayed seriam mortos mais tarde.

A descrição é das mais chocantes. Mulheres e crianças teriam recebido tiros na cabeça. “Entrevistados que chegaram na residência dos Abdulrazzak descreveram cenas de horror, com homens, mulheres e crianças amontoados em cantos de salas”, escreveu, apontando para sangue na parede e corpos pelas ruas. Machados e facas também foram usados para executar as famílias.

Temos o hábito de falamos de crimes do passado em um tom de superioridade, quase que os justificando ao insinuar que foram cometidos em uma sociedade que seria menos brilhante que a nossa, menos capaz de entender o sofrimento humano que nós e mais disposta a tomar medidas drásticas. Grande engano. O progresso humano não é nem inevitável e muito menos automático, como diria Martin Luther King.