Síria: o massacre e o silêncio incômodo do Brasil

Síria: o massacre e o silêncio incômodo do Brasil

Jamil Chade

31 Maio 2012 | 20h42

 

Nas histórias de revoluções, guerras e conflitos, há sempre um momento em que a balança acaba se inclinando para um lado e o destino daquele conflito começa a ser definido. Nesta semana, o massacre em Houla, na Síria, pode ter sido um desses momentos decisivos. 108 pessoas executadas, 49 delas crianças de menos de dez anos de idade e uma comunidade internacional que foi obrigada a se deparar com uma pergunta direta: o que fazer agora.

Nesta sexta-feira, diplomatas engravatados tomarão uma das salas da ONU em Genebra para condenar o massacre. Parte da comunidade internacional dirá um sincero “basta” à matança. Outra parte, mais hipócrita, está usando o incidente para pressionar ainda mais pela queda do regime de Bashar Al Assad.

Seja como for, a realidade é que o destino da Síria pode ter começado a ganhar um novo formato diante desse episódio. Ban Ki Moon, secretário-geral da ONU, deu o tom: “mais um massacre como esse e a Síria entra em guerra civil”. Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito sobre as violações na Síria, também usa Houla como uma referência. Mas para alertar justamente que não existe outra opção senão a negociação. Para ele, o massacre pode ser um recado do que ocorreria de uma forma generalizada no país se a opção for abandonar as negociações de paz. Portanto, melhor apostar na mediação que Kofi Annan está conduzindo e esquecer da ideia de uma militarização.

Se Houla pode ser um divisor de águas para a Síria, a história está repleta de episódios parecidos que definiram o destino de populações inteiras.

Em Sarajevo, no dia 5 de fevereiro de 1994, uma bomba caíria sobre o mercado na praça principal, poucos minutos antes do meio dia. 68 mortos e 200 feridos entre a população muçulmana.  Seria necessária mais uma bomba, um ano depois no mesmo mercado, para fazer a OTAN agir.

Nos Balcãs, no século 19, o embate entre o Império Turco-Otomano e Russo também precisaria de um massacre para mudar a história da região. Verdadeiras orgias de assassinatos, estupros e destruição de vilarejos cristãos eram promovidos pelos otomanos. O auge desse momento teria ocorrido na cidade de Batak, hoje na Bulgária. Lá, a estimativa é de que 5 mil dos 7 mil habitantes morreram nas mãos dos soldados turcos. Aqueles que conseguiram escapar do primeiro massacre se refugiaram na única igreja do vilarejo. Mas o local seria incendiado, com os cristãos dentro.

Pouco a pouco, os massacres na Bulgaria ganhavam a atenção do restante da Europa, principalmente por meio de relatos de missionários cristãos que estavam na região. Outro fator que começou a pesar foram os artigos publicados por diversos jornais europeus que haviam enviado seus correspondentes ao front. Um deles, Januarius MacGahan, descreveria com detalhes o que encontrou ao chegar em Batak.

“Do lado oposto à rua estavam esqueletos de duas crianças, parcialmente cobertas por pedras, e com um corte de dar medo em seus pequenos crâneos. O número de crianças mortas nesses massacres é algo de enorme. Eles eram frecquentemente espetados em baionetas e nós temos várias histórias de testemunhas que viram pequenos bebês carregados pelas ruas, tanto aquí como em Otluk-kui, nas pontas das baionetas”, afirmou.

MacGahan, que havia nascido em Ohio nos Estados Unidos, contava ainda como os soldados “abriram mulheres grávidas, e mataram as crianças que ainda não tinham nascido”. “Ao aproximarmos do centro da cidade, ossos, esqueletos e crâneos se tornavam mais numerosos. Não havia uma só casa em ruinas em que não viamos restos humanos e as ruas próximas a elas estavam repletas com esses restos. Nas portas de suas casas, mulheres andavam de cima para baixo com seus cantos fúnebres. Uma delas agarrou meu braço e me levou para dentro da casa e, em um dos cantos, cobertos pela metade com pedras e morteiro, estavam os restos de uma outra jovem mulher, com seu longo cabelo mexendo de forma selvagem entre pedras e poeira. E a mãe, em agonia, batia com sua cabeça de forma louca contra a parede. Eu só pude me virar e sair andando sentindo dor no coração, deixando-a sozinha com seu esqueleto. Alguns passos adiante, uma mulher estava sentada nos degraus da porta de sua casa, balançando seu corpo para frente e para traz, emitindo lamentações além do que eu poderia imaginar. Sua cabeça estava enterrada em suas mãos, enquanto seus dedos estavam inconscientemente torcendo seu cabelo que caia sobre seu colo, onde estavam três pequenos crâneos, ainda com um pouco de cabelo agarrado sobre eles. Como é que a mãe se salvou e as crianças foram massacradas? Quem saberá”, afirmou o jornalista em sua crônica.

MacGahan relataria o que viu em uma escola, onde os ossos e cinzas de 200 mulheres e crianças queimadas vivas poderiam ainda ser encontradas. Fora das salas, um pátio era o local onde mais cem pessoas haviam sido enterradas. “Mas os cachorros descobriram parte deles. A água pode entrar e agora o que se ve é uma piscina de horrores, com restos humanos boiando entre a lama”, escreveu.

A descrição chocaria a opinião pública europeia. “O que vimos la era medonho demais. Um número imenso de corpos que haviam sido parcialmente queimados. Eu nunca havia imaginado algo tão horrivel. Andamos pelo local e vimos que essa cena se repetia centenas de vezes. Em todos os lugares, horrores e mais horrores”, disse.

O jornalista não precisava de tradutor ou interprete para determinar o que havia ocorrido naquele massacre, nem de um mandato da ONU. Seu papel contribuiu para trazer para a opinião publica europeia a imagem de uma dissolução moral e psicológica do Império Otomano. A destruição de minorias não era mais que um reflexo da autodestruição que ocorria no seio da elite turca, no comando militar.

Os relatos de MacGahan influenciaram de forma decisiva a emergente opinião pública europeia que começava a surgir, pesando contra os turcos e sua aliança que existia até aquele momento com Londres. Alguns dos jornais mais influentes da época apelaram para que o Reino Unido abandonasse seus compromissos fechados ao final da Guerra da Crimeia com os turcos diante das novas atrocidades, convenientemente se esquecendo dos crimes cometidos pelos cristãos, que foram inúmeros.

Mas seria na Rússia que o apoio por uma guerra para proteger a população búlgara ganharia mais apoio público, de intelectuais da época e da elite após a publicação dos detalhes dos massacres. Grupos de intelectuais e polìticos acreditavam que as atrocidades dos turcos abriam a possibilidade para que o Kremlin finalmente colocasse em prática o que já se fermentava há anos no país: a necessidade de a Rússia Imperial agir, unir todas as nações ortodoxas e eslavas, numa espécia de Destino Manifesto do Kremlin. O movimento não deixava dúvidas de que a Europa precisava ter suas fronteiras e que o mundo ortodoxo não cabia às potências como Paris ou Londres, muito menos aos turcos.

Não há dúvidas de que um massacre não precisa e nem deve ser respondido com novos massacres. Houla não pode e nem deve dar início a uma guerra civil. O momento é o de pressionar Assad, isola-lo e usar a ocasião para mostrar que o próximo passo pode ser desastroso para toda a região.

A única certeza, diante do massacre, é que o silêncio incômodo, como o que está sendo adotado pelo Brasil, é a única resposta que não se pode aceitar, seja em Sarajevo, na Bulgária no século 19 ou em Houla no seculo 21.

O Itamaraty apoiou a convocação da reunião da ONU nesta sexta-feira. Mas isso não é suficiente. Condenar publicamente o massacre de Houla não significa queimar canais de diálogo, que admito que são fundamentais se uma guerra deve ser evitada. Para uma sociedade com valores democráticos, significa ter princípios.