Stiglitz: Contração do PIB brasileiro é “preocupante”

Jamil Chade

03 de dezembro de 2013 | 12h04

Economista afirmou que cenário externo não explica a queda no PIB e alerta: “normalmente, depois dos Jogos Olímpicos, vem a crise”. 

 

GENEBRA – O economista Joseph Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel, alerta que a contração do PIB brasileiro não é apenas resultado da crise internacional e que problemas domésticos também são responsáveis pela queda na economia. Em entrevista a dois jornais brasileiros, em Genebra, o americano deixou claro que o Brasil terá de reformar seu sistema financeiro e reduzir os juros.

“É preocupante”, declarou Stiglitz, sobre a contração de 0,5% no PIB brasileiro. Stiglitz ainda apontou: não existem garantias de que os grandes eventos esportivos no Brasil ofereçam um boom para a economia. “Após a Olimpíada, vem a crise”, declarou.

“As pessoas sempre disseram que o Brasil é o país do futuro. Mas acho que esse é um momento especialmente difícil para a economia global. A Europa está em recessão, os EUA estão em estagnação, a China se desacelera”, disse. “Para mim, a surpresa é o tamanho da contração no Brasil. Mas devo dizer que não entendo totalmente. Estou um pouco surpreso”.

Stiglitz deixa claro que não é apenas a situação internacional que explica a contração no Brasil.
“Está num contexto global de desaceleração e isso tudo está relacionado. Mas isso não explica completamente (a desaceleração) no Brasil. Não acho que se possa dizer que é só por causa de fatores externos. Mas os fatores externos com problemas internos podem levar a isso”, explicou.

“Parece que existem fatores internos também. O Brasil foi afetado pela entrada e saída de capitais que desestabilizam qualquer economia e pode ter um impacto negativo. O Brasil aparentemente foi um dos países que mais sofreu com a política americana e, portanto, se inflitrou no sistema financeiro”, explicou.

Para o economista, o Brasil tem hoje um sistema financeiro com pouca capacidade para agir como colchão contra um impacto internacional. “Há problemas na estrutura do mercado financeiro no Brasil. Tem sido uma preocupação ha tempos. Isso interage com pouca capacidade de absorver choque”, disse.

Sua avaliação é de que o País não terá outra opção senão a de reformar seu sistema financeiro.
“O Brasil vai ter que eventualmente pensar em reformar seu sistema financeiro. Porque você tem este sistema com taxas de juros reais muito, muito altas para o sistema bancário, e taxas de juros mais razoáveis no BNDES, portanto, vocês têm um mercado financeiro muito segmentado. Isso normalmente não é de uma boa forma de operar um sistema financeiro. As taxas de juros que se cobram no sistema banca5rio privado é uma das maiores do mundo”, alertou.

Copa – Para Stiglitz, nem mesmo a Copa do Mundo de 2014 ou os Jogos Olímpicos de 2016 são garantias de crescimento, ainda que aponte que alguns países conseguiram usar esses momentos para dar um impulso a suas economias.

“É frequentemente o caso que os investimentos na construção destes eventos representam um impulso para a economia. E o debate no Brasil sem sido mais vivo do que em outros países sobre se está é a melhor forma de gastar dinheiro”, disse. “E isso pode ter limitado o montante dos gastos. Na minha opinião, é um debate saudável. Até porque, em outros países, houve até um período de crescimento. Mas a previsão padrão é de que depois das Olimpíadas, vem a crise”, alertou.

Em sua avaliação, a realização em si dos grandes eventos não gera o crescimento. Tudo depende de como esses torneios são usados. “Alguns países pensaram bem como usar isso como oportunidade para fazer investimentos que vão ser a base de crescimento econômico futuro. Outros países simplesmente construíram estádios no lugar errado, ou casas no lugar errado, que não são usadas , um desperdiço de recursos. Em alguns países, o entusiasmo ligados aos Jogos Olímpicos criaram um otimismo que resultou em investimento em outras áreas. É algo raro, mas acontece”, declarou.

O economista admite que parte do crescimento dos últimos anos no Brasil pode também estar relacionado com a alta nos preços de commodities. Mas aponta que a economia brasileira é diversificada e poderia resistir. “Houve um período de alto preços nas commodities em que vários países que eram exportadores se beneficiaram. Mas o sucesso do Brasil vai além disso e as exportações não são apenas de minérios. Mas também vemos a Embraer. Cada vez que você sobe num avião nos EUA, é um Embraer”, disse.

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