SUÍÇA FECHA SUAS FRONTEIRAS

SUÍÇA FECHA SUAS FRONTEIRAS

Jamil Chade

01 Maio 2012 | 17h32

 

 

 

 

 

Na minha rua, num villarejo próximo à Genebra, um vizinho colocou no portão de sua casa uma placa que chega a valer uma gargalhada. “Não entrar. Violadores serão baleados. Sobreviventes serão baleados de novo”.

O problema é que, na Suíça, essa ironia vai além de uma mera graça de um vizinho espirituoso. A partir de hoje, terça-feira, a Suíça abandonará o princípio da livre circulação de pessoas na Europa e aplicará cotas para a entrada de imigrantes do Leste Europeu. A medida enfureceu a União Europeia, que rapidamente lançou um alerta para que outros governos não seguissem a mesma ideia.

Na Suíça, o governo fez questão de anunciar que tinha o direito de levantar os muros e que precisava controlar a entrada de imigrantes, isso depois de um partido ter espalhado pelo país há poucos anos um cartaz que mostrava uma ovelha negra sendo chutada para fora da Suíça por ovelhas brancas. Mais recentemente, o mesmo partido usou a imagem de mãos negras roubando passaportes suíços para alertar que a nacionalidade suíça estava sendo entregue a estrangeiros de forma descontrolada.

O país não faz parte da União Europeia, mas é parte do Acordo de Schengen, que estipula a liberdade de movimento entre países europeus, o fim das fronteiras e a cooperação entre as policiais. Mas votou em seu Parlamento a imposição de cotas contra trabalhadores da Polônia, Hungria, Lituânia e outros oito países. No total, permitirá a entrada de apenas 2 mil pessoas dessa região. No ano passado, foram 7 mil os cidadãos do Leste Europeus que chegaram na próspera Suíça para trabalhar, um número considerado como desprezível entre especialistas em imigração.

Em Bruxelas, a reação foi de indignação por parte da União Europeia, acusando abertamente a Suíça de adotar políticas discriminatórias. Para a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, a cota viola a liberdade de movimento de pessoas estipulado pelo acordo. “Essa medida não e justificada economicamente, nem por conta da situação do mercado de trabalho, nem pelo número de cidadãos europeus tentando estabelecer residência na Suíça” alertou.

O porta-voz da UE, Michael Mann, apelou à Suíça para que trate todos os cidadãos da Europa da mesma maneira. “A Suíça não tem o direito de fazer diferenças entre os diferentes estados membros da UE. Somos 27 e ponto final”, declarou. Os governos da República Tcheca, Polônia, Hungria e Eslováquia tambmém criticaram a medida, alertando que a crise não poderia afetar a “liberdade econômica da Europa”.

Mas há ainda outro grupo muito preocupado: a Associação de Fazendeiros da Suíça, que usam a mão de obra barata do Leste Europeu para suas colheitas, embolsando os subsídios milionários dados pelo estado.

Com o fim do fornecimento desses boias-frias da periferia da Europa, o temor dos fazendeiros suíços é de que tenham de pagar salários maiores – e mais descentes – a outros trabalhadores, como os italianos que já começam a chegar em grandes números, ou mesmo suíços. No país, o salário mínimo é de cerca de US$ 3 mil.

O resultado da imposição da cota para os boias-frias do Leste Europeu, segundo a visão da associação, poderia ser um encarecimento dos produtos agrícolas suíços. Enfim, viva os guardiões dos direitos humanos e da liberdade no Velho Continente….