Suíça investiga US$ 2 bi dados pela Fifa para o « desenvolvimento do futebol »

Jamil Chade

25 de junho de 2015 | 05h22

GENEBRA – O Ministério Público da Suíça investiga doações e programas de desenvolvimento da Fifa avaliados em US$ 2 bilhões distribuídos nos últimos quinze anos por Joseph Blatter a federações nacionais de todo o mundo. Os procuradores querem saber até que ponto o dinheiro enviado pelo mundo foi de fato usado no futebol ou se acabou se transformando em uma forma de comprar aliados e favores. Desde que assumiu o poder, em 1998, Joseph Blatter construiu sua base de poder proliferando campos de futebol e ajuda a dezenas de federações pelo mundo.

Mas, juntos com eles, vieram agrados, dinheiro e subornos a cartolas que passaram a ser aliados incondicionais do suíço. Na prática, era um sistema que o garantia votos e cinco vitórias seguidas em eleições. Em troca, Blatter não perguntava muito qual era o destino do dinheiro para “o desenvolvimento do futebol”.

No centro do escândalo está o projeto GOAL, destinado a levar o futebol a locais pobres, com a construção de centros de treinamento, campos e infra-estrutura. Mas a realidade é que, segundo auditores e mesmo dirigentes, o dinheiro em muitos casos jamais chegou aos jogadores. Os suíços querem saber se os recibos enviados e as notas de obras são reais ou apenas fraudes para justificar o dinheiro enviado. Entre 1999 e 2014, a entidade distribuiu cerca de US$ 2 bilhões nesses programas.

Até 2018, a promessa seria de que mais US$ 900 milhões gastos nessas iniciativas. Agora, a Justiça quer saber quanto desse valor poderia ter sido lavagem de dinheiro.

No últimos fim de semana, a reportagem do Estado revelou como dezenas de projetos de apoio ao futebol conduzidos pela Fifa haviam sido alvos de polêmicas, desvio de verbas e compra de votos. Isso incluia verbas para as vítimas do terremoto no Haiti, no Paquistão, apoio ao Nepal, Ilhas Cayman e diversos outros exemplos.

Ao Estado, o auditor da Fifa, Domenico Scala, garantiu que « novas medidas de contrôle estão sendo adotadas ». Em março de 2011, porém, Blatter respondeu a uma pergunta sobre o que ele pensava da corrupção que já naquele momento assolava a Fifa. « Existe a corrupção e a corrupção. Se eu quero ser eleito prefeito de meu vilarejo, o que devo fazer ? Eu voua o bar da praça central, digo um olá a todos e pago uma rodada a todos. É assim que funciona », declarou.

O centro da investigação do MP suíço continua sendo a designação da Copa de 2018 para a Rússia e a de 2022 para o Catar. Mas diante do confisco de 9 terabites de documentos da sede da Fifa, os procuradores não escondem que abriram novas frentes de investigação.

Documentos e emails da alta cúpula da entidade foram confiscados e, segundo os investigadores, praticamente tudo o que estava no gabinete do secretário-geral da entidade, Jerome Valcke, foi transferido para a Justiça. Na semana passada, o MP indicou que já investiga 104 transações bancárias, além de ter recebido 53 alertas de transações suspeitas por parte dos próprios bancos sediados na Suíça.

Segundo a investigação do FBI que resultou no dia 27 de maio em sete presos em Zurique, entre eles José Maria Marin, pelo menos 150 bancos foram usados em 24 anos por um amplo esquema de fraude e que envolveu US$ 150 milhões.