Telegramas colocam em questão a neutralidade suíça durante a Ditadura no Brasil

Jamil Chade

05 de março de 2012 | 13h03

ESPECIAL: Bastidores da Ditadura no Brasil

Tradicionalmente neutro, o governo suíço atuou como representante do regime militar brasileiro em suas relações com Fidel Castro durante anos. Mas os documentos revelados nos arquivos de Berna revelam uma postura que na prática viola qualquer definição de neutralidade política.

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Nos telegramas, diplomatas e políticos do país europeu proliferam elogios à cúpula militar brasileira e até simpatia em torno dos ideais defendidos pelo regime. O embaixador suíço no Brasil acabaria sequestrado no Rio de Janeiro e sua libertação foi condicionada ao fim prisão para 70 dissidentes políticos que estavam detidos pelo regime, a maior troca feita durante o período da ditadura.

Documentos oficiais encontrados no arquivos da diplomacia suíça mostram que quatro meses depois do golpe militar no Brasil, os suíços assumiram a responsabilidade de representar os interesses do governo de Castello Branco em Havana. O mandato foi renovado em 1966 e 1968, de acordo com outros telegramas que também apontam a mesma função da Suíça em prol da Casa Branca em Havana ou do governo de Israel em Teerã.

Se oficialmente a posição dos suíços era de neutralidade, o intercâmbio de cartas entre a cúpula suíça revela que o regime não era questionado por suas violações aos direitos humanos no Brasil. Já os elogios eram generosos. O marechal Odílio Denis é classificiado como « venerável ». Já Castello Branco seria de uma « integridade absoluta» e de uma « cultura nitidamente acima da média de outros oficiais ».

Em seu telegrama de 1966, o embaixador suíço no Brasil, Giovanni Bucher, chegava a apontar que Castello Branco assumiu «com seriedade» a tarefa de « levar o País à normalidade constitucional ». Para Bucher, a « revolução » havia sido « fácil ».

Quatro anos depois, o mesmo Bucher acabaria sendo sequestrado por grupos de oposição armada no Rio de Janeiro, liderados por Carlos Lamarca. Ao ser sequestrado, tentou argumentar que ele não era americano.

A negociação para seu resgate levou mais de um mês e o diplomata acabou liberado só depois que o regime aceitou transferir 70 presos políticos para o Chile.

Na madrugada de 14 de janeiro de 1971, os prisioneiros políticos embarcariam para Santiago. Bucher seria liberado e voltaria pouco tempo depois para a Suíça.

Amanhã neste blog: EUA justificam apoio a militares brasileiros


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