UMA DÉCADA DEPOIS, A REVELAÇÃO: NINGUÉM QUERIA A RODADA DOHA DA OMC

UMA DÉCADA DEPOIS, A REVELAÇÃO: NINGUÉM QUERIA A RODADA DOHA DA OMC

Jamil Chade

15 Maio 2012 | 06h08

Afinal, o que ocorreu com a Rodada Doha da OMC…Aquela que iria tirar os países da pobreza, corrigir erros e injustiças históricas no comércio mundial, acabar com os subsídios dos países ricos à agricultura e ainda elevar os emergentes a uma posição de líderes em exportação.

11 anos depois do lançamento da negociação, o processo está estagnado. O prédio da OMC não atrai nem jornalistas e nem lobbistas. Pior, as ongs anti-mundialistas que pediam o fim da OMC não se dão o trabalho sequer de protestar. Tal é a irrelevância hoje do processo negociador da Rodada Doha.

Pascal Lamy, diretor da entidade, tenta colocar a culpa em fatores externos e já disse centenas de vezes que, quando países estão internamente em uma situação ruim, o sistema multilateral também sofre.

Mas, em entrevista ao Estado, a ex-comandante do comércio exterior americano, Charlene Barschefsky, tem uma explicação bem diferente e alerta que o pecado original é outro: governos nunca quiseram a Rodada Doha.

“Sabiamos que ia ser um processo longo. Os países não estavam prontos. Nem em 1999 na conferência de Seattle e nem em 2001, em Doha, quando a negociação foi lançada”, disse. Em 1999 ela presidiu sobre o evento em Seattle, marcado pelos confrontos dentro e fora das salas de reuniões.

A ex-representante de Comércio de Bill Clinton tem sua explicação sobre o motivo que levou governos a iniciar, ainda assim, o processo. “A Rodada Doha só foi lançada por conta dos ataques de 11 de setembro de 2001. A comunidade internacional queria mostrar unidade e solidariedade. Mas a negociação não foi lançada porque os países queriam um acordo”, admitiu.

Há alguns anos, o então chanceler Celso Amorim indicou que talvez fosse necessário um desastre do tamanho de 11 de setembro para criar as condições para que o acordo fosse fechado. A crise que começou em 2008 poderia ser esse evento esperado e Lamy não deixou de tentar capitalizar sobre isso. Mas também fracassou. “Países estão hesitantes. Ninguém sabe o que vai ocorrer com economia global”, concluiu a americana.

A pergunta é porque se gastou tanto dinheiro em milhares de horas de reuniões, viagens, cúpulas, encontros e estudos se a verdade é que ninguém queria o processo. Talvez tenhamos de esperar mais uma década para obter essa resposta.