Vaticano desenterra ossos de São Pedro e reabre polêmica

Vaticano desenterra ossos de São Pedro e reabre polêmica

Jamil Chade

23 de novembro de 2013 | 21h05

ROMA – Neste domingo, pela primeira vez nos dois mil anos da Igreja, o Vaticano vai expôr ao público os ossos que seriam de São Pedro, o primeiro papa, a base da Igreja e num esforço de atrair milhões de pessoas de volta para a religião. Mas a decisão também abre um velho debate que é tão antigo quanto o Vaticano: os ossos são de fato de Pedro?

Em 1968, o papa Paulo VI anunciava que ossos descobertos no cemitério do Vaticano seriam “de uma forma que acredita-se ser convincente” de que são de Pedro. Ainda assim, as relíquias seriam mantidas distante do público, algo que o papa Francisco decidiu colocar um fim e justamente para marcar o Ano da Fé.

O argentino promete uma missa que deve atrair neste domingo milhares de pessoas à Praça São Pedro. Na ocasião, a urna com os ossos e que tradicionalmente fica na capela pessoal do papa seria apresentada à multidão.

Mas a realidade é que nunca nenhum papa confirmou com 100% de segurança que os ossos seriam de seu antecessor. O próprio jornal oficial do Vaticano, o Osservatore Romano explicou na semana passada que as relíquias seriam “reconhecidas pela tradição” como sendo de Pedro.

Se não existe dúvidas teológicas sobre o túmulo do apóstolo e seu valor para a Igreja, no mundo científico e mesmo dentro dos muros da Santa Sé o debate foi sempre intenso.

Tudo começou em 1939 quando o papa Pio XII autorizou o início da escavação da Basílica na busca do que seria o túmulo do apóstolo. A descoberta ocorreria apenas onze anos depois num anúncio histórico e ao mesmo tempo contraditório. O papa garantia que aquele era o túmulo, mas admitia que não havia certeza se os ossos eram de Pedro.

Um novo capítulo começou como a arqueóloga Margherita Guarducci ordenou o papa Paulo VI a fazer testes nos ossos que os primeiros trabalhos coletaram. Esses ossos, misteriosamente, haviam sido retirados da tumba nos anos 40 e colocados em caixas. E esquecidos por décadas.

Com os testes realizados e ainda sem provas, ela convenceu o papa a fazer uma declaração de que o Vaticano acreditava que aquelas poderiam ser as relíquias de Pedro. Pelos testes, os ossos seriam de homem robusto e que teria morrido com cerca de 60 anos.

Mais do que os ossos, porém, sua tese estava baseada no fato de ter encontrado perto do túmulo a inscrição Petr eni, o que seria a abreviação em grego de que “Pedro está aqui”. Para arqueólogos jesuítas nos anos 60, o Vaticano jamais teria de ter insinuado que os ossos são do apóstolo. Agora, será um papa jesuíta quem apresentará as relíquias ao mundo.