VELHA EUROPA: DIA DE TURBULÊNCIA ESCANCARA OS LIMITES DA UE

VELHA EUROPA: DIA DE TURBULÊNCIA ESCANCARA OS LIMITES DA UE

Jamil Chade

14 Maio 2012 | 21h06

Um aposentado holandes que caminhava por uma praia na Grécia no final da tarde de domingo, na companhia de seu cachorro, foi surpreendido por dois homens que saltaram do carro e lhe aplicaram uma surra. Um morador local conseguiu anotar a placa do carro e os criminosos foram pegos. Nesta segunda, em depoimento à polícia de Peloponeso, admitiram a violência e deram uma explicação que, na Grécia de hoje, beira ao razoável: pensaram que o holandês fosse um alemão. A surra era uma retaliação pelo que Berlim estaria fazendo a Grécia passar, com sua receita de austeridade que já fez o país perder 15% de seu PIB e que pretende demitir 150 mil funcionários públicos em 5 anos.

Nesta segunda, a Velha Europa mostrou todos os seus limites de um projeto de união que parecia perfeito, até que as primeiras rachaduras começarem a aparecer e escancarar o fato de que a união estava repleta de buracos, legais, econômicos e mesmo sociais.

O que também mostrou seu limite hoje foi o suposto muro – o firewall- criado por Bruxelas para evitar que a crise em um país se espalhe para os demais países. Dois anos de trabalhos de ministros e cúpula de estado para criar um muro contra o contágio parecem não ter funcionado.

A Grécia passa por sua crise mais grave. Não apenas não tem dinheiro, como agora também não tem governo. E tudo indica que nem terá pelos próximos dias. A maratona política para tentar formar um governo de união nacional já dura nove dias, sem sinais de um fim do impasse. Na realidade, a única solução que parece ganhar algum apoio é a ideia de formar um governo, mas sem políticos. Nada mais claro que isso para mostrar que o país já faliu economicamente e agora sofre uma falência política. Pior, parte dos partidos que fizeram campanha aceitou a oferta. Um mundo que nem a lógica circular dos mitos poderia explicar.

Mas o mal-estar na Europa não se limitou à Grécia. Enquanto hoje ministros discutiam o futuro do euro em Bruxelas, a Espanha se dava conta que, apesar de todas suas reformas e cortes de gastos, o mercado ainda a castiga e nenhum muro de proteção está criando um abrigo. O risco-país bateu um novo recorde, numa demonstração que a contaminação vinda de Atenas é real.

Um dos ministros espanhois alertou Bruxelas de que tudo que estava em seu poder já havia sido feito, num sinal claro de que, a partir de agora, Madri precisará da ajuda da UE.

A Itália também sofreu. Foi rebaixada pela Moody´s e 26 de seus bancos também sofreram uma revisão pela agência. Bolsas em todo o continente também sofreram, num sinal de que a crise não da sinais de ceder e de que o contágio é real.

A cada dia que passa na Europa, fica cada vez mais claro que a estratégia de Bruxelas de ganhar tempo, empurrar com a barriga o sofrimento dos gregos ou o desemprego espanhol pode acabar sendo mais perigoso que muitos imaginavam. O dia termina na Europa com um estranho ar de que o pior ainda não chegou, enquanto seus ministros apenas usam o espaço na imprensa para negar que estejam debatendo formas de a Grécia deixar o euro.

Apesar das declarações oficiais, bancos no Reino Unido indicaram que passarão a noite de hoje já verificando em seus sistemas de informática se estão prontos para uma eventual volta do dracma, enquanto empresas já preveem que chegariam a fechar suas lojas em Atenas por alguns dias, até que o clima ganhasse contornos de uma normalidade.

Houve ainda tempo hoje para uma nova piada entre os gregos. Em Atenas, a anedota recorrente que se conta é que as autoridades da Casa da Moeda já estariam pensando qual mensagem colocar no novo dracma, algo parecido com o que os americanos tem no dolar – In God we Trust (Em Deus Confiamos). Uma das mensagens preferidas pelos funcionários gregos parece ser: “Pelo amor de Deus, ajude-nos a sair desse buraco.”