Vozes que nunca se calam

Jamil Chade

05 de novembro de 2015 | 20h47

Mais uma vez, este blog abre o espaço para as mulheres e adere à iniciativa ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬

Hoje, o blog foi ocupado de forma extraordinária por uma mãe que manda uma carta a suas filhas. A voz, literalmente, é da cantora Juliana Kehl. 

 

Queridas Dora e Helena,

Viver em liberdade pode ser um salto no vazio, performar sem platéia. Lutar por igualdade também implica em se despojar do medo da rejeição, da solidão, do desterro. Talvez essa seja a lição mais difícil que vocês irão enfrentar na vida.

Tive a sorte de poder escolher o momento no qual vocês vieram ao mundo e ser bem assistida enquanto amadureciam dentro de mim. Isso me torna uma privilegiada numa sociedade que atropela até mesmo o direito a autonomia sobre o próprio corpo.

Nas últimas semanas vi dezenas, centenas de mulheres abrindo suas memórias sobre assédio e violência, algumas delas as mais dolorosas. Vi Simone de Beauvoir causando alvoroço em pleno exercício do segundo milênio, vi alguns de nossos direitos básicos sendo usurpados.

Talvez vocês já saibam enquanto crescem e testam os meus limites, de alguma maneira quase embrionária, que nossa sociedade dança nada docemente entre a civilização e a barbárie. É com esse mundo que vocês irão lidar logo mais e é sobre essa dança que precisaremos conversar um dia.

Quando esse momento chegar, prometo me esforçar ao máximo para ensinar à vocês que nosso corpo não é apenas um receptáculo, tampouco nosso cárcere ou libertação. Somos esse paradoxo flutuando entre anatomia e cultura, nossa biologia é insuficiente para encerrar uma definição que nos abarque. Essa construção complexa eu mesma ainda preciso desvendar.
Vocês vão perceber, desde muito cedo, que meninas são normalmente criadas para conterem sua sexualidade ao limite, fecharem suas pernas, a se comportarem com obediência e servidão. Meninos são criados para serem caçadores, dominadores. Esses esteriótipos ultrapassados são sufocantes para todos.

É preciso lembrar que feminismo não deveria ser assunto exclusivo das mulheres nem uma cruzada misândrica. Também não é preciso recorrer à padrões culturalmente masculinos criticados por séculos como estandartes libertários. Os homens não são um modelo ideal ao qual as mulheres precisam perseguir. É necessário buscar todos juntos por uma alternativa que contemple nossa condição existencial e intelectual comum. Essa busca nada tem de romântica, é uma demanda contemporânea que precisa de atenção e urgência.

Conversaremos sobre culpa e a inexorável responsabilidade que recai covardemente sobre a mulher diante da violência cometida contra ela, seja física, verbal ou psicológica, não apenas no âmbito interpessoal mas cada vez mais validada nos campos institucionais.

É importante investigar desde cedo quem somos para além dos meandros do desejo insuflado pela publicidade, pelas revistas que vão tentar ensinar à vocês as filigranas da sedução barata, calcada sempre num suposto imaginário masculino.

Não sei quais desafios vocês enfrentarão quando tiverem idade para lerem e compreenderem esse texto. O que eu realmente sonho é que a desigualdade, a violência contra a mulher, e tantas outras pautas fossem questões superadas no futuro, quando vocês finalmente caminharão pelo mundo sem mim.

Infelizmente não parecemos andar nessa direção. Porém, toda luta por direitos necessita de constante vigilância e revisão, me seguro firmemente à ela, às mulheres da minha geração e à todas as outras que deram sua vida por uma sociedade mais justa. Espero ser capaz de despertar essa voz em cada uma de vocês para que não se calem nunca.

Juliana Kehl é cantora, compositora e mãe das gêmeas Dora e Helena.