Zico e Iraque: uma seleção em busca de um país

Zico e Iraque: uma seleção em busca de um país

Jamil Chade

11 de outubro de 2012 | 08h32

Malmo, Suécia – Na noite de ontem, o técnico do Iraque, Zico, e o brasileiro Mano Menezes se encontraram no lobby do hotel onde estão concentrados para o jogo de hoje. Mas se Mano Menezes sente dificuldades na busca de um conjunto, o técnico Zico tem uma tarefa bem mais complicada no Iraque: precisa ainda convencer seus jogadores que entram em campo a defender um só país. O Iraque ainda vive as consequências da invasão estrangeira e grupos regionais insistem em não reconhecer Bagdá como o centro de poder. Apesar de os jogadores entrarem em campo vestindo a camisa do Iraque, muitos deles declaram que não se sentem iraquianos e querem um dia representar suas nações, principalmente o Curdistão.

Hoje, Brasil e Iraque entram em campo para um amistoso em Malmo, na Suécia. Mas os desafios do Iraque vão bem além de evitar gols na tarde de hoje.

Sete dos jogadores convocados por Zico vem do Erbil, time da região curda do Iraque. Cada vez que o clube joga fora de casa, o clube precisa levar consigo um segundo time de seguranças para garantir que os jogadores curdos não serão atacados na concentração. Durante os jogos, torcidas adversárias puxam gritos acusando-os de serem os “Judeus do Iraque”.

Erbil é a capital do Curdistão e a base da luta contra o regime de Saddam Hussein. Mas, mesmo com a queda do regime em 2003, a região continuou a lutar por sua independência.

Com 15% das reservas de petróleo do Iraque e uma certa estabilidade, Erbil até consegue pagar salários altos aos jogadores. O resultado é a transformação do time local na maior potência do futebol iraquiano. Venceu cinco dos últimos seis campeonatos nacionais.

Por enquanto, o Erbil joga no campeonato iraquiano, única forma de classificá-lo para os torneios regionais. Mas, em paralelo, a Associação de Futebol do Curdistão montou um campeonato regional que seria um embrião de um torneio nacional do sonhado país e é o único no Iraque que conta com a presença de treinadores estrangeiros. O secretário-geral da entidade, Salam Hussein, não esconde: “estamos usando o esporte como arma para nossa independência”.

Zico, quando eu o questionei sobre essa rivalidade, deixou claro que prefere nem tocar no assunto com os jogadores ou comissão técnica. “Eu não quero nem saber quem é curdo ou não. Que entrem em campo para jogar futebol”, disse.

O Iraque viveu seu momento auge no futebol na década de 80, quando se classificou para sua única Copa do Mundo. Após a queda de Saddam Hussein e as revelações de que seu filho torturava jogadores que fracassavam em campo, o time do Iraque voltou a brilhar, conquistando em 2007 a Copa da Ásia.

Agora, com Zico, tenta se classificar para a Copa de 2014. Mas caiu num dos grupos mais difíceis de sua região, tendo de competir com Japão e Austrália por uma vaga. Além do desafio em campo, Zico vive outro fora: seu salário de outubro está atrasado, descobriu que a estrutura é mínima e admite que, em um ano, foi ao Iraque em apenas cinco oportunidades. “É muito complicado”, completou.

 

 

 

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