A guerrilheira, o pára-quedista e como o Brasil chegou até aqui

A guerrilheira, o pára-quedista e como o Brasil chegou até aqui

Lourival Sant'Anna

14 de junho de 2020 | 11h49

Se você quer conhecer profundamente uma pessoa, comece perguntando o que ela fez na juventude. Lá estão encapsulados os sonhos, o que dá sentido à existência. Se quer entender um país, comece analisando os seus líderes, por mais consciente ou inconsciente que tenha sido a sua escolha. Dilma Rousseff aspirou ser guerrilheira; Jair Bolsonaro, pára-quedista. Isso ajuda a explicar como chegamos até aqui.

O guerrilheiro trava uma guerra assimétrica, contra um inimigo muito mais poderoso. Seu armamento e efetivo são muito inferiores. Suas vantagens são a agilidade, o conhecimento do terreno e a flexibilidade para fazer alianças táticas, circunstanciais, com atores que podem ter objetivos estratégicos diferentes e até mesmo conflitantes com os seus. Em nome de objetivos de longo prazo, o guerrilheiro adere a métodos e faz alianças contraditórios com seus princípios. É comum envolver-se tanto com esses meios heterodoxos que eles modificam seus fins, abandonados no caminho.

A especialidade do pára-quedista é penetrar um ambiente hostil, dominado pelo inimigo. Ele não conhece o terreno, a não ser por fotos aéreas e mapas. É usado como comando tático, como força especial, quando a infantaria e a cavalaria estão com dificuldade de avançar contra o inimigo que ocupa o território. Sua tarefa é desestabilizar a área, dividir a atenção do inimigo, distraí-lo para que ele abra o flanco para as forças terrestres avançarem. Repetindo: dividir, desestabilizar, em um ambiente hostil. Quando as forças terrestres consolidam a ocupação e estabilizam o teatro de guerra, cessa a atividade do pára-quedista. Sua ação é puramente tática. Está a serviço de uma estratégia, mas não tem conhecimento dela, não se guia por ela. Sua visão é fragmentada, localizada. Ele deve focar no ponto em que aterrissará, para onde se deslocará rapidamente, e com uma missão específica a executar.

O guerrilheiro não é um bom negociador. É por isso, aliás, que ele é um guerrilheiro. Toda guerrilha tem um braço político. Melhor dizendo, toda guerrilha é o braço armado de uma organização política, que se encarrega tanto dos objetivos quanto das negociações. Reiterando: o guerrilheiro terceiriza os objetivos e as negociações. 

Para o pára-quedista, essas questões nem sequer se colocam. Sua visão de mundo é ainda mais estreita que a do guerrilheiro. Seu horizonte é o inimigo a matar, o alvo a destruir. Pensar no futuro desviaria a sua atenção dos desafios e ameaças iminentes.

Para obter armas, apoio logístico, financeiro e político, o guerrilheiro realiza serviços para outras organizações e países. São as chamadas guerras por procuração. É parte de suas alianças táticas, mais ou menos coerentes com os seus objetivos estratégicos. Sem isso, a guerrilha não sobrevive. 

Apesar de sua grande autonomia e qualidade individual, o pára-quedista também não sobrevive sozinho. Se as forças terrestres não avançarem graças à sua ação desestabilizadora, ele terminará preso ou morto pelos inimigos que ocupam o território. 

Essa é a grande contradição do guerrilheiro e do pára-quedista: eles são ao mesmo tempo autônomos e dependentes; fortes mas vulneráveis; livres e subjugados. A incoerência reforça sua personalidade instável, impulsiva e agressiva; que por sua vez explica o que os levou a se tornarem o que são. Hugo Chávez foi pára-quedista.

Tanto o guerrilheiro quanto o pára-quedista são sobreviventes em um mundo hostil. Sua estratégia de sobrevivência é o ataque. Na alma do guerrilheiro pulsa uma remota esperança de um dia construir algo. Na do pára-quedista, o futuro é apenas uma grande incógnita, tão grande que não vale a pena ocupar-se dela. Essa diferença de fundo é irrelevante na prática. Passado e futuro não contam para ambos, porque o presente os mobiliza inteiramente.

Trazendo essas descrições para a experiência do Brasil nos últimos dez anos, fica mais fácil entender como chegamos até aqui: a incapacidade de Dilma de negociar com o Congresso, a substituição do acordo pela corrupção sistemática, sua dependência de Lula, que lhe passou a presidência por procuração, as alianças táticas com grandes empresários; e agora a forma de Bolsonaro governar por meio da divisão, da instabilidade, do caos, sua dependência de militares da Infantaria (como Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo) e da Cavalaria (como Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional), sua falta de compreensão das consequências e dimensões de seus atos, enfim, de visão estratégica. 

Daí a sensação difusa, entre os brasileiros, de viver há dez anos sem rumo, ao sabor da incerteza e da imprevisibilidade. Essa é a realidade da guerra assimétrica, seja a de guerrilha, seja a das incursões de comandos táticos. Num certo sentido, essas escolhas refletem a cultura do país, de buscar atalhos, soluções rápidas, enfim, de valorizar a velocidade em detrimento do rumo, os impulsos em vez dos objetivos.

Nelson Almeida / AFP

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