Ataque contido do Irã e reação de Trump buscam esfriar os ânimos

Ataque contido do Irã e reação de Trump buscam esfriar os ânimos

Lourival Sant'Anna

08 de janeiro de 2020 | 08h49

As Forças Armadas iranianas calcularam a sua represália contra a morte do general Qassim Suleimani de maneira a evitar uma escalada com os Estados Unidos, algo que ambos os governos não desejam. Cerca de 20 mísseis foram disparados contra duas bases americanas. Ninguém ficou ferido.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, tuitou: “O Irã adotou e concluiu medidas proporcionais em autodefesa de acordo com o Artigo 51 da Carta da ONU atingindo a base da qual covardemente um ataque armado contra nossos cidadãos e altos funcionários foi lançado. Não buscamos escalada ou guerra, mas nos defenderemos contra qualquer agressão”.

A palavra mais importante desse tuíte é “concluiu”. O líder espiritual iraniano, Ali Khamenei, disse que o ataque foi um “tapa na cara” dos EUA. Dentro da lógica do regime, na qual o líder espiritual tem a última palavra, significa que os iranianos que pediram “vingança”, “não mais negociação” e “morte à América” devem se contentar com essa represália.

Imagem fornecida pela TV iraniana de míssil disparado contra base americana
Foto: “AFP PHOTO / ISLAMIC REPUBLIC OF IRAN BROADCASTING”

Para dar mais contundência à “dura vingança” prometida por Khamenei, a agência de notícias Fars, subordinada ao líder espiritual, anunciou que “ao menos 80 soldados dos EUA” foram mortos no ataque, ao contrário da informação conjunta dos comandos americano e iraquiano.

O assassinato de Suleimani, um herói nacional, na sexta-feira, deixou o regime numa situação delicada. O general gozava de muito mais apreço dos iranianos do que a teocracia. O próprio regime cultivou sua imagem ultimamente, mostrando-o na TV visitando as tropas da Guarda Revolucionária e as milícias apoiadas por ela no Iraque e na Síria, para dar uma face heróica à projeção iraniana na região.

Daí a necessidade de uma resposta, que Khamenei prometeu que seria dada pela Guarda Revolucionária, e não por milícias iraquianas, sírias ou libanesas, para estar à altura de Suleimani. Entretanto, ela teria de ser calculada para não obrigar o presidente Trump a dar mais um passo adiante em direção a uma guerra, algo que ele também não deseja, já que seria cobrado nessa campanha eleitoral da promessa que fez em 2016 e nos anos seguintes de desengajar os Estados Unidos dos conflitos.

“Está tudo bem!”, tuitou o presidente Donald Trump depois do ataque, quando ainda era noite de terça-feira nos EUA. “Mísseis lançados do Irã contra duas bases militares localizadas no Iraque. Avaliação de baixas e danos sendo feita agora. Até o momento, tudo bem! Temos, de longe, as forças militares mais poderosas e bem equipadas do mundo. Farei um pronunciamento amanhã de manhã”. Foi uma indicação de que ele iria seguir o mesmo roteiro que os iranianos, de esfriar os ânimos.

 

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