Autor de massacre batia na mulher e teve contato com terrorista

Autor de massacre batia na mulher e teve contato com terrorista

Lourival Sant’Anna

13 Junho 2016 | 10h14

A história de Omar Mateen, que matou 49 pessoas antes de ser morto pela polícia em uma boate gay de Orlando na madrugada de domingo, mostra o quanto fatores psicológicos e sociais interagem com as crenças morais e a doutrina religiosa para levar um indivíduo à passagem ao ato terrorista. O contato de Mateen com o radicalismo islâmico e com militantes terroristas aparentemente foi pequeno. Sua agressividade e a expressão que ela ganhou no seu machismo e na sua homofobia foram os traços mais marcantes da sua trajetória nos últimos anos, pelo que se sabe até aqui.

Depois de se conhecerem em 2008 pela rede social Myspace, Mateen e Sitora Yusufiy, uma imigrante do Usbequistão — vizinho do país de seus pais, o Afeganistão —, casaram-se em 2009. Logo em seguida, conta Sitora, ele passou a bater nela, até quando estava dormindo, a permitir que só saísse de casa para o trabalho, e a reter os pagamentos que ela recebia como cuidadora. Sitora foi “resgatada” de seu cativeiro por seus pais em 2011, e se divorciou. Ela contou ao jornal The New York Times que Mateen falava com frequência contra homossexuais, mas que nunca manifestou radicalismo islâmico.

Seu pai, o afegão Seddique Mir Mateen, disse que, há dois meses, passeava com o filho e o neto de 3 anos em Miami Beach, quando viram dois homens se beijando e se acariciando. “Olhe, estão fazendo isso na frente do meu filho”, indignou-se Mateen.

Ele passou então a preparar o seu ataque. Tentou tornar-se amigo pelo Facebook de um clube de homossexuais, o M Hotel and Revere, mas o proprietário, Micah Bass, observou que havia muitas postagens no alfabeto árabe (usado pelas línguas afegãs) no perfil de Mateen na rede social, deduziu que o pedido tivesse sido um “engano” e não o aceitou.

Retrospectivamente, o dono do clube foi mais cauteloso do que o FBI. Colegas de Mateen na empresa de segurança G4S o denunciaram por ter contatos com terroristas. A polícia federal americana interrogou e investigou Mateen e constatou que ele havia de fato tido contato com Moner Mohammad Abusalha. Filho de pai palestino, Abusalha se tornou o primeiro terrorista suicida americano na Síria, em 2014, quando se explodiu na província de Idlib. Ele militava na Frente Al-Nusra, a franquia da Al-Qaeda na Síria, rival do Estado Islâmico (EI).

O FBI concluiu que esse contato fora “mínimo’, e que não havia outros sinais de radicalização de Mateen. Ele foi liberado e manteve seu emprego na G4S, uma das maiores empresas de segurança privada dos Estados Unidos, assim como sua licença de porte de arma. A G4S afirma que não foi informada da investigação. Um colega de trabalho notou que Mateen falava constantemente em matar pessoas.

Ao iniciar o ataque na boate Pulse, Mateen ligou para o telefone de emergência 911, declarou lealdade ao EI e elogiou o atentado contra a maratona de Boston. O EI reivindicou o ataque, como sendo de “um dos soldados do califado na América”, que atingiu cerca de “cem cruzados”.

Mateen frequentava a mesquita do Centro Islâmico Fort Pierce. O imam (clérigo) Syed Shafeeq Rahman disse que ele era um homem recluso e quieto, que ia de três a quatro vezes por semana, à noite, fazia suas orações e saía rapidamente, sem falar com ninguém. Rahman assegurou que ali Mateen não recebeu doutrinamento radical.

Esses fatos mostram que o controle das autoridades americanas sobre potenciais terroristas são menos rígidos do que se poderia imaginar. E há uma razão para isso: nas comunidades muçulmanas, os contatos com pessoas que depois aderem ao terrorismo não são totalmente incomuns. As pessoas vêm e vão, encontram-se e convivem, sem que necessariamente se estabeleça ali um elo e muito menos uma cumplicidade. Se as autoridades americanas fossem incriminar todas as pessoas que tivessem tido contato com futuros terroristas, o nível de repressão se tornaria talvez inviável.

Em 2011, autoridades russas alertaram o governo americano para o radicalismo do checheno Tamerlan Tsarnaev, radicado nos Estados Unidos. O FBI interrogou o suspeito e seus familiares, concluiu que ele não representava ameaça e o liberou sem qualquer vigilância. Dois anos depois, Tamerlan e seu irmão Dzhokhar cometeram o atentado a bomba contra a maratona de Boston, que matou 3 pessoas e feriu 264.

É provável que o caso de Mateen modifique os procedimentos do FBI e provoque um recrudescimento do controle sobre as comunidades muçulmanas. Mas não é possível evitar completamente ações como a de domingo na boate Pulse, dada a natureza mesma das motivações desses atentados, como mostra a história de Mateen: certamente milhares de pessoas nos Estados Unidos apresentaram sinais externos semelhantes aos seus, mas não têm uma vida doméstica com as mesmas características. A polícia não é capaz de penetrar nos aspectos íntimos de cada suspeito e entrecruzá-los com os sinais externos a ponto de traçar o seu perfil completo. Há muitos imponderáveis, como o próprio gatilho da passagem ao ato, no caso, um casal de homossexuais se beijando na presença de seu filho.

No mais, Mateen era um jovem de 29 anos bem-sucedido profissionalmente. Em 2006, aos 19 anos, obteve um diploma técnico de justiça criminal e, no ano seguinte, conseguiu o emprego na G4S, onde permaneceu trabalhando até o atentado de domingo. Em 2009, comprou um imóvel em um condomínio de classe média baixa em Fort Pierce (Flórida). Portanto, não há aqui uma associação entre problemas econômicos e sociais, como desemprego ou marginalização, e a sua explosão de agressividade.

Seu pai tinha uma projeção na comunidade de emigrantes afegãos. Foi apresentador de um programa de entrevistas em um canal de TV dedicado a esses emigrantes. E vinha ultimamente postando vídeos  vestido com farda militar ou de terno, com a bandeira do Afeganistão, manifestando apoio aos “guerreiros do Taleban”, que “estão se levantando”. Os fundadores do Taleban foram doutrinados em escolas religiosas no Paquistão patrocinadas pela Arábia Saudita com a leitura radical do Alcorão formulada pela corrente wahabita, também seguida pelo EI.

Seria preciso saber muito mais sobre Mateen, sobre sua infância, sua relação com o pai e a mãe, com os amigos e a escola. Mas sua história revela as múltiplas relações entre moralismo religioso, intolerância, agressividade e terrorismo. O massacre da boate Pulse abre um precedente inquietante: é o primeiro ato terrorista em grande escala motivado pela homofobia.

Omar Mateen, em foto sem data de seu perfil no Myspace Foto: AFP PHOTO / MYSPACE.COM

Omar Mateen, em foto sem data de seu perfil no Myspace
Foto: AFP PHOTO / MYSPACE.COM

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