Burkini põe em choque dois conceitos de liberdade

Burkini põe em choque dois conceitos de liberdade

Lourival Sant’Anna

25 Agosto 2016 | 10h49

Mulher de burkini na praia de Ghar El Melh, na Tunísia Foto: Fethi Belaid/AFP 16/8/2016

Mulher de burkini na praia de Ghar El Melh, na Tunísia
Foto: Fethi Belaid/AFP 16/8/2016

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, muçulmano de origem paquistanesa, opôs-se ao banimento do burkini na França: “Não acho que qualquer pessoa possa dizer às mulheres o que elas devem e não devem usar. Ponto. Tão simples assim”, disse ele, em visita a Paris, para discutir integração entre as duas cidades depois da saída britânica da União Europeia. Em entrevista ao tablóide londrino Evening Standard, Khan, eleito em maio pelo Partido Trabalhista o primeiro prefeito muçulmano de Londres, completou: “Não acho que isso esteja certo. Não estou dizendo que sejamos perfeitos ainda, mas uma das alegrias de Londres é que não apenas toleramos a diferença, nós a respeitamos, nós a acolhemos, nós a celebramos”.

É uma diferença importante. Quando se ainda está no nível de “tolerar” a diferença, falta muito para aceitar o outro. A diferença deve, sim, ser festejada como um enriquecimento, uma oportunidade de aprender, de ver a vida de outro modo. Em Londres (não no interior da Inglaterra), há essa predisposição, como há no Brasil. Na França, não: se você quer viver lá, tem de adotar os códigos da cultura francesa.  Os chamados sinais da religião — mais os da muçulmana do que os da cristã e da judaica — têm sido reprimidos por lei, desde o véu até essa nova moda do burkini, a forma que as muçulmanas conservadoras encontraram para ir à praia. A polícia está multando e forçando mulheres com burkini a se retirarem da praia em cidades como Nice e Cannes, onde a lei foi aprovada.

Não é uma questão simples, e as autoridades locais francesas têm um forte argumento, de que as leis e a cultura do país preveem a igualdade das mulheres. É por isso que a resposta de Khan é tão contundente: em nome da liberdade das mulheres se está reprimindo as mulheres — no caso, as muçulmanas. Sempre digo que, para uma moça de uma família muçulmana conservadora sair de casa sem o véu é o equivalente a uma moça ocidental sair sem camisa.

Parece-me que se trata de um sério dilema para o feminismo: a visão de que o código de vestuário muçulmano afronta o direito das mulheres à igualdade versus o direito das muçulmanas conservadoras de sair à rua e de ir à praia da maneira como se sentem melhor — ou da única maneira que podem sair.

O burkini é uma roupa de banho adaptada da burca, criada em 2004 por Aheda Zanetti, estilista australiana de origem libanesa. A burca é o vestuário tradicional das mulheres conservadoras, sobretudo da etnia pashtun, no Paquistão e no Afeganistão. Muitas vezes se usa indiscriminadamente essa palavra, que ficou famosa depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando o Ocidente redescobriu o Afeganistão. A burca se parece com uma armadura. Uma tela rígida por trás do tecido que cobre todo o corpo e o rosto deixa o vestuário meio armado. Os olhos são cobertos por essa tela. Pode ser preta, mas muitas vezes é de tons chamativos de rosa, amarelo, azul ou verde (sempre de uma cor só). A roupa usada pelas mulheres na Península Arábica, que cobre todo o corpo e o rosto, mas com um tecido maleável, sem essa armadura, e deixa apenas os olhos de fora, chama-se niqab, e é sempre preta. Já o véu cobrindo a cabeça e deixando o rosto à vista, com um vestido que cobre todo o corpo, chama-se hijab.