Crise com Irã marca fim da hegemonia americana

Crise com Irã marca fim da hegemonia americana

Lourival Sant'Anna

05 de janeiro de 2020 | 19h17

A atual crise com o Irã assinala o final de um período de três décadas de hegemonia americana. O marco inicial desse período foi a arregimentação de 30 países sob a liderança dos Estados Unidos para expulsar o Iraque de Saddam Hussein do Kuwait, entre 1990 e 1991. O marco final, a ameaça do presidente Donald Trump de atacar 52 alvos iranianos. No primeiro caso, o então presidente George H. Bush deixou Saddam pensar que não haveria reação americana se ele ocupasse o Kuwait, porque queria uma guerra. No caso atual, Trump tenta dissuadir o Irã de seguir adiante na escalada, porque não quer uma guerra.

O senso comum costuma tomar as palavras dos governantes por seu valor de face. No mundo da política, da geopolítica e da defesa, é preciso interpretar o real sentido das palavras dentro do seu contexto, e muitas vezes se descobre que o significado real é o contrário do literal.

Em 1990, Saddam saía de uma guerra por ele próprio provocada, que terminou empatada. Apoiado pelos Estados Unidos e a Europa, o Iraque invadiu o Irã em 1980, para ocupar campos de petróleo no Golfo Pérsico, na fronteira entre os dois países. O Irã por sua vez acabava de viver a Revolução Islâmica de 1979, e Saddam acreditou que conseguiria se impor sobre o país vizinho com facilidade. Entretanto, as forças iranianas se reagruparam com surpreendente rapidez. O que se se seguiu foi uma guerra de oito anos, que deixou 1 milhão de mortos dos dois lados e terminou empatada, apesar de o Iraque contar com armamento americano e europeu.

Diante desse desmoralizante erro de cálculo, Saddam considerou que precisava de uma nova guerra para se sustentar no poder. Em meados de 1990, o ditador iraquiano passou a ameaçar o Kuwait com uma invasão, para cobrar supostas dívidas não pagas, e reaver o que ele chamava de “a 17.ª província iraquiana”. Os EUA, aliados tanto do Iraque quanto do Kuwait, não sinalizaram que sairiam em defesa do pequeno emirado. Na época houve até a informação de que a embaixada americana em Bagdá teria dado o sinal verde para a aventura de Saddam. Ele foi em frente, e invadiu o Kuwait no dia 2 de agosto.

Escrevo tudo isso de cabeça, porque eu era o redator da Internacional do Estadão encarregado de Oriente Médio, e esses momentos fizeram parte da minha vida. Na verdade, esse período de 30 anos coincide com a minha carreira de jornalista internacional.

Naquele momento, a União Soviética estava se desfazendo. Bush, ex-diretor da CIA e um arguto analista do cenário internacional (estamos falando, claro, do pai), compreendeu que aquela era a oportunidade de mostrar ao mundo o significado da “nova ordem internacional”, que ele depois anunciaria: os EUA como superpotência hegemônica.

O mundo árabe, boa parte dele alinhado até então à União Soviética, estava ansioso por uma oportunidade de se alinhar com os EUA. Bush criou a coalizão, incluindo importantes membros do mundo árabe, como o Egito, a Síria, a Jordânia, a Arábia Saudita e as outras monarquias árabes do Golfo Pérsico, além de países da Europa e da Ásia.

Com essa coalizão, teve início a fase de hegemonia americana pós-guerra fria. Essa fase chega ao seu final agora, com a ascensão da China como superpotência econômica. Os Estados Unidos ainda são, de longe, a maior potência militar, uma democracia pujante e um país com extraordinários recursos humanos e naturais. Mas não podem mais reivindicar o papel de única potência hegemônica.

Depois da guerra do Iraque de 1991, os Estados Unidos cometeram dois erros de cálculo importantes, ambos, ironicamente, sob a presidência de George W. Bush, o “Bush filho”. O primeiro deles foi no Afeganistão. Mais uma vez o mundo se uniu no apoio à reação americana aos atentados de 11 de setembro de 2001. Mas Bush e seus assessores decidiram fazer mudança de regime no Afeganistão para instaurar ali uma democracia pró-americana. Um objetivo muito mais realista teria sido fazer um acordo com uma facção do Taleban contrária à presença da Al-Qaeda no Afeganistão e impor condições severas para desocupar o país, com o claro recado de que as tropas americanas voltariam, se o acordo fosse descumprido.

Como relato no meu livro Viagem ao Mundo dos Taleban, o então chanceler e número 2 do regime afegão, Wakil Ahmed Muttawakil, não concordava com a presença da Al-Qaeda no país, que ele chamava de o “elemento árabe”. O Taleban não tinha em princípio nada contra os EUA. Era o líder do regime, Mohamed Omar, que havia sido envolvido por Osama bin Laden, que se casara com uma filha dele. Muttawakil estava pronto para liderar um novo governo afegão não hostil aos EUA. Só duas décadas de guerra depois, os EUA compreendem esse erro, e o governo Trump negocia um acordo com o Taleban, cuja influência sobre o Afeganistão continua incontornável.

O segundo erro foi a invasão do Iraque, com o objetivo de também ali mudar o regime e introduzir uma democracia pró-ocidental. O que é quase um paradoxo, já que, com uma população de maioria xiita, uma democracia iraquiana conduz naturalmente a um governo xiita, e portanto alinhado com a potência xiita da região: o Irã.

Manifestação contra guerra em Washington
Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

E aqui chegamos à incongruência da estratégia de Trump para o Golfo Pérsico. Ele tenta manter dois compromissos de sua campanha de 2016: endurecer com o Irã e desengajar os EUA de conflitos externos, principalmente no Oriente Médio. Trump rompeu o acordo nuclear iraniano e impôs duras sanções econômicas ao Irã, na esperança de provocar um levante popular no país que derrubasse o regime. O descontentamento popular no Irã é crescente, como pude constatar nas minhas quatro visitas ao país. Mas o regime se mantém firme, graças a sua ilimitada disposição de reprimir os protestos. Segundo a Anistia Internacional, 208 manifestantes foram mortos em menos de uma semana, em novembro.

Os americanos estão cansados de guerras, e desencadear uma agora daria combustível aos opositores democratas na corrida eleitoral deste ano. É por isso que Trump tenta dissuadir o Irã de atacar alvos americanos, com a ameaça dos 52 alvos. Não que os EUA não tenham a capacidade militar de derrotar o Irã. É óbvio que têm. Mas o custo material e humano disso pode se revelar politicamente alto demais.

Então, por que Trump ordenou o ataque que matou o general Qassim Suleimani? O presidente vinha aturando provocações do Irã desde junho, que incluíram a derrubada de um drone americano e o bombardeio da principal refinaria e campo de petróleo da Arábia Saudita, seu mais importante aliado no Golfo. Mas o ataque com 31 foguetes contra uma base militar dos EUA no norte do Iraque, dia 27, que deixou um americano morto e vários feridos, foi a senha para Trump reagir, para evitar que o Irã realizasse ataques ainda mais contundentes, no seu intuito de pressionar os EUA a aliviar as sanções que por sua vez ameaçam a sustentação do regime iraniano.

Como se vê, é um encadeamento de acontecimentos, e hoje tanto a reeleição de Trump quanto a sobrevivência da teocracia iraniana estão em jogo. É por isso que a situação é tão grave e volátil.

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