Crítica de Trump a pais de capitão morto atrai condenação de republicanos

Crítica de Trump a pais de capitão morto atrai condenação de republicanos

Lourival Sant’Anna

01 Agosto 2016 | 16h06

Khizr e Ghazala Khan, em seu depoimento na convenção democrata, na Filadélfia Foto: Alex Wong/Getty Images/AFP - 28/7/2016

Khizr e Ghazala Khan, em seu depoimento na convenção democrata, na Filadélfia
Foto: Alex Wong/Getty Images/AFP – 28/7/2016

Mesmo considerando seu estilo, estratégia e objetivos, Donald Trump parece ter ido longe demais dessa vez, ao criticar os pais paquistaneses de um capitão americano que morreu na guerra do Iraque em 2004. Sua reação ao depoimento de Khizr Khan, pai do capitão morto, na convenção do Partido Democrata, está provocando rejeições enfáticas de líderes republicanos. O respeito pela memória de soldados mortos e por seus familiares, chamados de “Estrela Dourada”, por causa da condecoração que recebem, é um tabu na cultura americana, que nenhum político de sua projeção tinha ousado violar.

Khizr, que diz ter sido eleitor republicano, e sua mulher Ghazala subiram ao palco da convenção democrata na quinta-feira, dia 28, para fazer um comovente testemunho sobre a morte de seu filho no Iraque e sobre como eles se sentem ao ouvir as ameaças de Trump de proibir a entrada de muçulmanos, que ele associa ao terrorismo, e também sua condenação à imigração. Seu filho, o capitão Humayun Khan, morreu aos 27 anos na explosão de um carro-bomba na frente de sua base, em Baquba. Ele foi averiguar o carro, mandando seus subordinados ficar para atrás, num lance clássico de heroísmo. Humayun nasceu nos Emirados Árabes Unidos, de onde imigrou com os pais para os EUA em 1980, aos dois anos de idade.

Em seu depoimento, ao lado de Ghazala, Khan sacou do paletó uma edição de bolso da Constituição americana, para argumentar que as propostas de Trump eram contra as leis e o espírito que fundaram os Estados Unidos. Insinuando que o candidato não conhece a Constituição, Khan sugeriu que ele procurasse pelos trechos que falam de liberdade e de igualdade perante a lei. Se as ideias do candidato americano estivessem em vigor no país em 1980, quando a família imigrou, nenhum deles estaria lá, disse Khan, advogado em Washington, com especialização pela Universidade de Harvard. Sua mulher, Ghazala, foi professora de farsi em uma faculdade no Paquistão. Seu filho mais velho, Shaharyar, foi um aluno de destaque na Universidade da Virgínia e co-fundador de uma empresa de biotecnologia, na qual trabalha o irmão mais novo, Omer, o único que nasceu nos EUA.

Em entrevista à ABC, Trump foi sarcástico: “Se você olhar para a mulher dele, de pé, ali, ela não tinha nada para dizer. Talvez ela não tenha tido permissão para ter algo a dizer. Diga-me você.”

O senador republicano John McCain, que concorreu com Barack Obama na eleição de 2008, e que também já foi alvo do sarcasmo de Trump, que colocou em dúvida seu heroísmo no Vietnã, por ter sido prisioneiro de guerra, criticou duramente a atitude do candidato de seu partido: “É hora de Donald Trump dar um exemplo para nosso país e para o futuro do Partido Republicano. A nomeação que o partido lhe concedeu (para ser o candidato) não significa licença incondicional para difamar os melhores entre nós”, disse McCain, cujo filho também serviu no Iraque, e cujos antepassados lutaram em guerras. O senador agradeceu aos pais de Khan por terem imigrado para os Estados Unidos. “Seu filho foi o melhor da América, e a memória de seu sacrifício nos tornará uma nação melhor, e ele nunca será esquecido”, concluiu McCain.

Outro senador republicano, Lindsey Graham, da Carolina do Sul, manifestou sua indignação com a reação de Trump: “Isto está indo para um lugar aonde nunca fomos antes, atacar as famílias dos mortos em batalhas. Costumava haver algumas coisas sagradas na política americana, que você não faz, como criticar os pais de um soldado morto, mesmo que eles o critiquem”. Graham se referiu então a um aspecto visível da personalidade de Trump, que sempre reage com o fígado a críticas — e elas não têm sido poucas: “Se você vai ser o líder do mundo livre, tem de ser capaz de aceitar críticas”.

O casal tem dado várias entrevistas a canais de TV americana, e Trump às vezes responde pelo Twitter, durante os programas. À MSNBC, Khan disse a respeito de Ghazala: “Eu sou muito mais fraco que ela, nessas questões”. À CNN, Khan argumentou que as comunidades muçulmanas nos EUA são parte da solução do problema do terrorismo. “Somos o testemunho da bondade deste país”, disse o imigrante paquistanês. “Precisamos de um líder que nos una, não de desrespeito, não de observações pejorativas.”

Artigo assinado por Ghazala no Washington Post deste domingo afirma: “Donald Trump perguntou por que não falei na convenção democrata. Ele disse que queria me ouvir. Aqui está minha resposta para Donald Trump: sem dizer uma palavra, o mundo todo, a América toda, sentiu minha dor”.

Ghazala conta que o marido perguntou se ela queria falar na convenção, mas ela respondeu que não conseguiria. “Quando Donald Trump fala sobre o Islã, ele é ignorante. Se ele estudasse o verdadeiro Islã e o Alcorão, todas as ideias que ele tem sobre terrorismo mudariam, porque o terrorismo é uma religião diferente.”

Ghazala conclui o artigo assim: “Donald Trump disse que fez muitos sacrifícios. Ele não sabe o que a palavra sacrifício significa”.

Ao entrar dessa forma nessa controvérsia, Trump parece dar um tiro no pé. Ele costuma se dirigir ao eleitorado branco e cristão, principalmente de nível de instrução mais baixo, que se sente prejudicado pelo deslocamento de indústrias americanas para outros países, e acolhe bem teses xenófobas. Mas esse mesmo eleitorado preza o heroísmo dos militares americanos nas guerras. É por isso que levar os pais do capitão Humayun Khan para falar na convenção foi uma jogada de mestre dos democratas. E Trump, com toda a sua sagacidade, prejudicada às vezes pelo hábito de falar primeiro e pensar depois, dá a impressão de ter caído na armadilha.