É a 2.ª Guerra Fria, não a 3.ª Guerra Mundial

É a 2.ª Guerra Fria, não a 3.ª Guerra Mundial

Lourival Sant'Anna

07 de janeiro de 2020 | 13h19

Sempre que há um conflito envolvendo os Estados Unidos e algum aliado da China ou da Rússia, muitas pessoas me perguntam se vem aí a 3.ª Guerra Mundial. A melhor referência para o que estamos presenciando veio depois: a Guerra Fria. Com um roque nas peças: na 1.ª Guerra Fria os EUA polarizaram com a União Soviética, que tinha a China como aliado menor. Agora, os EUA polarizam com a China, que tem a Rússia como aliado menor.

Assim como fez a União Soviética entre 1945 e 1990, agora é a China que desafia a posição americana de nação hegemônica. Entretanto, o desfecho dessa nova disputa será diferente: a China está ultrapassando os EUA em poderio econômico, capacidade de inovação e, no médio prazo, com a Iniciativa da Rota da Seda (Belt & Road Initiative), influência no mundo. O quesito que demorará mais tempo será o militar. Mas caminhamos para um futuro em que as guerras não serão feitas com tanques, aviões, navios e mísseis – o tipo de armamento em que os EUA são insuperáveis –, mas com inteligência artificial. É nesse campo que a China ultrapassará os EUA.

Como a atual crise com o Irã se encaixa nessa disputa? O Irã tem o apoio econômico e político da China e da Rússia. O ataque da milícia pró-iraniana Brigadas do Partido de Deus (Kataib Hezbollah) no dia 27 de dezembro a uma base americana no Iraque, que desencadeou a atual escalada, coincidiu com um exercício militar de três dias das Marinhas iraniana, russa e chinesa no Oceano Índico e no Golfo de Omã.

Destróier chinês e fragatas iraniana e russa em exercício militar conjunto dia 28/12/2019
Foto: AFP PHOTO / HO / Iranian Army office

Ainda que não entrem numa guerra direta com os EUA para defender o Irã, China e Rússia darão apoio indireto, na forma de armamento, inteligência e assessoria militar. Impedirão, com seu poder de veto, que o Conselho de Segurança da ONU dê uma aparência de legalidade a uma eventual intervenção americana no Irã. Nesse caso, a própria França também se oporia. China e Rússia também oferecem uma sobrevida econômica ao regime iraniano, asfixiado pelas sanções americanas. É o mesmo esquema com relação à Venezuela e à Coreia do Norte, por exemplo: povos empobrecidos com regimes robustos.

A 1.ª Guerra Fria foi caracterizada por guerras por procuração entre aliados dos EUA e da URSS, na Ásia e na África. E também por algumas guerras travadas diretamente pelos EUA ou pela URSS contra um aliado da outra superpotência. Os exemplos mais importantes foram as guerras da Coreia, do Vietnã e do Afeganistão. Na Guerra da Coreia, a China teve um papel mais importante que a URSS no apoio ao regime norte-coreano. Na guerra do Afeganistão, a URSS foi derrotada em 1989, e essa desmoralização contribuiu para o fim do império soviético, dois anos mais tarde.

Os EUA também foram derrotados no Vietnã, uma guerra que teve um impacto profundo sobre a política, a cultura e a psique americanas. Mas naquele momento os EUA ainda estavam em sua trajetória ascendente, em termos econômicos e de capacidade de inovação. O conflito com o Irã pega os EUA em seu declínio, apesar de ser um país que ainda reúne recursos humanos e materiais impressionantes.

As ocupações do Afeganistão e do Iraque consumiram parte desses recursos, enquanto a China os acumulava, e nesse sentido elas contribuíram para acelerar a ascensão chinesa e o declínio americano. O impacto que esse conflito com o Irã terá sobre os EUA ainda é desconhecido, até porque ainda não se sabe qual será sua natureza e dimensão. Mas não há dúvida de que ele já está consumindo uma energia dos americanos que deveria estar dirigida para a inovação.

Afinal, diferentemente do passado, quando a indústria bélica estava fortemente integrada à inovação, no século 21 uma guerra representa muito mais um custo do que um impulso. Pergunte aos eleitores americanos, que elegeram Barack Obama e, depois, Donald Trump, em parte por causa de suas promessas de campanha de desengajar os Estados Unidos dos conflitos em que estavam envolvidos.

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