No último debate, Trump não garante que aceitará o resultado das eleições

No último debate, Trump não garante que aceitará o resultado das eleições

Lourival Sant’Anna

20 de outubro de 2016 | 02h05

Hillary e Trump, ao final do debate, em Las Vegas Ethan Miller/Getty Images/AFP

Hillary e Trump, ao final do debate, em Las Vegas
Ethan Miller/Getty Images/AFP

O candidato republicano Donald Trump se recusou a garantir que aceitará o resultado da eleição presidencial americana. “Vou lhe dizer no momento”, respondeu Trump, à pergunta do âncora Chris Wallace, da Fox News, que mediou o terceiro e último debate antes da eleição do dia 8, na noite desta quarta-feira. “Vou deixá-lo em suspense.” É a primeira vez que um candidato de um dos dois grandes partidos americanos assume essa atitude em um debate. Ao longo de sua campanha, Trump vinha denunciando que essas eleições seriam fraudulentas, e que a mídia participa de uma conspiração contra ele.

A comparação imediata é com o candidato democrata Al Gore nas eleições de 2000. O Partido Democrata pediu a recontagem dos votos em três distritos na Flórida, que era governada pelo irmão de seu adversário, Jeb Bush. Cabe aos governos estaduais organizar e supervisionar os pleitos nos EUA. Gore havia derrotado George W. Bush na votação popular nacional por 543.895 votos, mas perdera na Flórida por 537. Mesmo assim, quando a Suprema Corte derrubou a recontagem, por 5 votos a 4, ele reconheceu a vitória de Bush, pedindo ao partido para não entrar com novas ações. A situação agora é diferente. Trump está, de antemão, colocando em suspeição a lisura do sistema eleitoral americano.

O formato desse debate permitiu que ele fosse mais substantivo do que os dois anteriores. Os 90 minutos ininterruptos foram divididos em seis temas, com 15 minutos para cada: o perfil dos futuros juízes da Suprema Corte, o que inclui os temas do aborto e do controle de armas; imigração; déficit público; economia; direitos sociais e perfil para presidir o país. Os cinco primeiros temas levaram a uma divisão clássica entre as propostas republicanas e democratas — com exceção da questão do comércio, na qual Trump adota uma posição protecionista, contrária aos princípios de seu partido. De resto, ele se colocou contra o aborto e o controle de armas; pela repressão à imigração ilegal; defendeu cortes nos impostos e nos gastos para impulsionar a economia. Enquanto Hillary assumiu posições opostas.

Mas quando se chegou à questão de quem era adequado para ser presidente, surgiram os temas do assédio de mulheres por Trump e suas denúncias de fraude eleitoral, assim como o tráfico de influência da Fundação Clinton e o uso de um servidor privado de emails por Hillary quando era secretária de Estado (2009-2013).

Além de não assegurar seu apoio ao resultado da votação, Trump ainda afirmou que não pediu desculpas a sua mulher, Ivanka, pelas denúncias de assédio, porque elas eram falsas. Ele conjecturou que a campanha de Hillary havia fabricado as denúncias, ou que as mulheres simplesmente estavam em busca de “10 minutos de fama”. Trump também acusou a campanha democrata de ter pagado US$ 1.500 a pessoas para provocarem tumultos em seus comícios.

Outra passagem que também deverá ser relembrada nesse debate, considerando a necessidade de Trump de atrair o voto feminino, ocorreu quando Hillary falava da necessidade de cortar os custos da seguridade social. “Minha conta da seguridade social está subindo, como deve estar a do Donald também, se ele não tiver encontrado um jeito de sonegar”, disse ela rindo, numa referência à informação de que ele não pagou US$ 916 milhões em impostos.

“Que mulher perversa”, atalhou Trump.

Em geral mais contida que Trump, Hillary também o interrompeu algumas vezes. Quando ele falava que tinha estado em um quarto “muito bom, por sinal”, de seu hotel em Las Vegas, onde foi realizado o debate, Hillary interveio: “Feito com aço chinês”. Ela alega que Trump se diz contra o comércio com a China, mas usou aço importado daquele país em suas construções.

Segundo pesquisa da CNN, 52% dos telespectadores disseram que Hillary venceu o debate, ante 39% que acharam que Trump se saiu melhor. Na média das pesquisas anteriores ao debate, calculada pelo site Real Clear Politics, Hillary venceria no voto popular por 48,6% a 42,1% e, no Colégio Eleitoral, por 333 a 205 (incluindo os Estados que oscilam dentro da margem de erro).