O brasileiro precisa saber desistir

Lourival Sant’Anna

07 Maio 2016 | 20h52

A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm acenado com a possibilidade de rejeitar o veredito do Congresso a respeito do impeachment, levando a “militância” do PT, dos sindicatos e do MST para as ruas. Ambos têm associado sua relutância em abandonar o poder ao slogan “Sou brasileiro e não desisto nunca”, campanha publicitária lançada pelo governo no primeiro mandato de Lula. Por melhores que tenham sido as intenções dessa campanha, ela expressa uma visão de mundo profundamente equivocada.

Na manifestação do dia 11 de abril na Lapa, no centro do Rio, Lula contou ter aceitado assumir a chefia da Casa Civil depois que a presidente lhe disse: “Lula, preciso de você para recuperar este país”. O ex-presidente continuou: “Nós vamos recuperar o Brasil. O país aprendeu a se respeitar. Esse povo aprendeu a gostar de si mesmo, quando a gente cunhou aquela frase famosa ‘Eu sou brasileiro e não desisto nunca’. Aprendeu a não ficar subordinado aos norte-americanos. Aprendemos que somos cidadãos igual a qualquer outro do planeta”.

Em uma palestra em 2005 na Escola Superior de Propaganda e Marketing, o então ministro da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken, contou que a campanha, proposta pela Associação Brasileira de Anunciantes, tinha como objetivo elevar a auto-estima do povo brasileiro, atendendo um pedido de Lula.

“Não desistir nunca” não é prova de auto-estima. Pelo contrário. Como Sigmund Freud explica em seu estudo “Luto e Melancolia”, a incapacidade de aceitar a perda de algo, ou seja, de fazer o luto, está associada à baixa auto-estima. É como se o objeto do desejo fosse mais importante do que o sujeito que deseja. Vivemos em uma época que glorifica a persistência, a perseverança e a resiliência. Devemos persistir no que é possível e, principalmente, nos faz bem. Mas devemos desistir do que não podemos ter ou nos faz mal.

Quando Lula enaltece o desejo de “não ficar subordinado aos norte-americanos”, dá a pista sobre a origem disso no inconsciente coletivo. Os  brasileiros nutrem um sentimento de inferioridade frente a outros povos, que vem da condição de colônia da Europa e se reforça e atualiza com o seu atraso em comparação com os Estados Unidos — país de dimensões e recursos naturais equivalentes aos do Brasil, descoberto e colonizado na mesma época. Esse sentimento explica a ambivalência dos brasileiros frente aos americanos: um misto de admiração, inveja, despeito e hostilidade. Isso não é maduro e não revela auto-estima. Afirmar que “não desiste nunca” não é uma superação da impotência, é lançar-se numa fantasia de onipotência que nos distancia ainda mais do contato com a realidade.

Esse sentimento de inferioridade e essa fantasia que lhe serve de compensação explicam aberrações do Brasil, como o protecionismo da indústria. Crescemos com a fantasia de que somos auto-suficientes em tudo, e pagamos um alto preço para alimentá-la, aceitando tarifas de importação proibitivas e margens de lucros escorchantes. É mais fácil manipular quem tem baixa auto-estima. Crescemos ouvindo que somos os maiores do mundo nisso ou naquilo. Só quem se sente inferior tem essa necessidade de se dizer superior. O adulto não precisa ser maior ou melhor que ninguém. Deseja apenas estar bem, fazer o melhor que pode, dentro do que a realidade permite.

No mercado financeiro — o ponto de encontro entre as emoções e a matemática —, existe o conceito de “stop loss”, segundo o qual não se deve manter papéis que estão perdendo valor só para não se perder o que já se investiu. É melhor aceitar a perda do que perder ainda mais tentando recuperar o irrecuperável. A compulsão de “não desistir” é a ruína dos jogadores.

A história do próprio Lula é reveladora, nesse sentido. Ele tem respaldado sua recusa em aceitar o eventual impeachment lembrando que não desistiu depois das derrotas nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Mas, para se eleger em 2002, ele desistiu de se apresentar como um maltrapilho operário. O PT se deu conta de que os pobres não votavam nele, mas, sim, a classe média de esquerda. Desse jeito, nunca venceriam uma eleição. O partido então contratou marqueteiros, e Lula aparou a barba, vestiu terno e adotou um discurso mais amigável e includente, que lhe valeu o apelido “Lulinha paz e amor”.

Por meio da “Carta ao Povo Brasileiro”, Lula desistiu do programa semi-socialista do PT e, embora tivesse votado contra o Plano Real, prometeu preservar seus fundamentos — entre eles a responsabilidade fiscal, agora atropelada por Dilma.

Uma vez eleito, Lula criou o programa Fome Zero, gerido por José Graziano da Silva, especialista em agricultura familiar da Unicamp. Insistiu por seis meses nessa ideia, até concluir que não se pode fazer transferência de renda com base na agricultura familiar, cujos custos são muito altos. Desistiu do Fome Zero e deixou Graziano numa sala do Planalto — mais tarde o premiaria bancando sua candidatura a diretor-geral da FAO, agência da ONU para a agricultura e os alimentos. Retomou o programa Bolsa Escola, de Fernando Henrique Cardoso. Consolidou o seu cadastro com o de outros programas sociais — o próximo passo que a ex-primeira-dama, Ruth Cardoso, considerava necessário dar —, ampliou-o e transformou-o no Bolsa Família, um programa bem-sucedido, apesar de seus defeitos.

O PT, no entanto, não desistiu de suas convicções antiliberais. Lula só foi capaz de domá-lo porque tem pleno controle do partido. Dilma, vinda do PDT, enfiada goela abaixo do PT por Lula, não usufruía da mesma liderança, e teve de fazer bem mais concessões ao populismo. Isso, somado à queda do preço das commodities, levou seu governo ao descontrole fiscal, à inflação e à ruína.

No que tange ao impeachment, está no direito de Dilma e do PT mobilizarem sua base no Senado para evitar a sua aprovação. O Supremo Tribunal Federal já convalidou o rito adotado no Congresso. No entanto, se quiserem, podem voltar a recorrer a ele. Se o Senado aprovar e o Supremo, que tem a palavra final numa democracia, não colocar objeção, está encerrado o assunto. Resta ao PT fazer oposição ao próximo governo e preparar-se para tentar voltar à presidência nas eleições de 2018. Tentar inviabilizar o próximo governo com bloqueios de estradas e outras ações violentas é antipatriótico.

Nos Estados Unidos, Al Gore obteve 543.895 votos a mais do que George W. Bush em 2000. Entretanto, a eleição presidencial americana é indireta, e a disputa acabou se concentrando no Estado da Flórida, que detém 25 dos 538 delegados no Colégio Eleitoral. A contagem oficial deu a Bush a vitória no Estado por margem de 537 votos. As máquinas de votação apresentaram falhas, que anularam muitos votos em redutos democratas. Nas cédulas, muitos eleitores democratas marcaram por engano o nome de Patrick Buchanan, do Partido da Reforma, cuja lacuna ficava ao lado do nome de Gore. Diante disso, o Partido Democrata pediu a recontagem dos votos em três distritos. A Flórida era governada por Jebb Bush, irmão do adversário de Gore, e sua secretária de Estado, Katherine Harris, comandava o processo eleitoral. Apesar das resistências da secretária, a Suprema Corte da Flórida acatou o pedido de recontagem.

Os republicanos recorreram à Suprema Corte federal e venceram por 5 a 4. Os cinco ministros que votaram a favor de Bush tinham sido nomeados em governos republicanos e sua posição foi incoerente com a sua linha conservadora, que os levava normalmente a referendar as decisões das supremas cortes estaduais. Gore, que tivera 543.895 votos populares a mais que Bush, perdeu a eleição por um voto na Suprema Corte.

Apesar de toda a frustração e do sentimento de injustiça não só dele mas de seus 51 milhões de eleitores, Gore aceitou imediatamente a decisão, e fez o seguinte pronunciamento à nação: “Agora a Suprema Corte falou. Que não haja dúvida alguma: enquanto eu discordo fortemente da decisão da Corte, eu a aceito. Eu aceito esse resultado final que será ratificado na segunda-feira no Colégio Eleitoral. Nesta noite, pelo bem de nossa unidade como um povo e pela força de nossa democracia, ofereço minha concessão. Esta foi uma eleição extraordinária. Mas em um dos caminhos imprevistos de Deus, este impasse tardiamente rompido pode nos indicar para um novo terreno comum, pois a própria margem estreita pode servir para nos lembrar que somos um povo com uma história e um destino compartilhados”.

É o que se espera de um líder.