O exemplo indígena da Constituinte chilena

O exemplo indígena da Constituinte chilena

Lourival Sant'Anna

20 de julho de 2021 | 19h37

Elisa Loncon, a presidente da Constituinte Chilena (Foto: AFP)

O Chile é o país mais avançado da América Latina, e um dos três do Hemisfério Sul, ao lado da Austrália e da Nova Zelândia. “Avançado” é diferente de “perfeito”. Ao se lançar no aperfeiçoamento de suas leis, os chilenos deram mais uma lição: elegeram presidente da Convenção Constitucional (assembleia constituinte) uma líder indígena, Elisa Loncón, que ademais é uma linguista respeitada.

A economia chilena está integrada ao mundo por 26 acordos de livre comércio, incluindo os Estados Unidos, a União Europeia, o Canadá, Japão, Coreia do Sul, Austrália e o Transpacífico. Além de próspero, tem os melhores indicadores sociais da região. O êxito na resposta à pandemia, coroado por uma das vacinações mais rápidas do mundo, foi mais uma prova da qualidade da gestão do Estado chileno.

Mas o regime previdenciário exclusivamente privado, a rede pública de saúde insatisfatória e o ensino superior pago, incluindo nas universidades públicas, geram tensões e exclusões. Daí a onda de protestos de 2019, que levou ao plebiscito de outubro do ano passado, no qual 79% dos chilenos votaram a favor da eleição de uma assembleia para escrever uma nova Constituição, que substituirá a de 1980, produto da ditadura militar.

O grande desafio da constituinte é equilibrar as mudanças sociais necessárias com a preservação dos traços institucionais que têm trazido avanços contínuos ao Chile. Os trabalhos coincidirão com as eleições presidenciais e parlamentares de novembro, o que aumenta o risco de contágio dos debates sobre a nova Constituição pelos interesses político-eleitorais.

Independentemente do êxito da assembleia, o simbolismo da eleição de Elisa Loncón reverbera pelas Américas, e elas precisam ouvir a mensagem que vem dos povos originais. O Canadá, um dos países mais avançados do mundo, descobriu nas últimas semanas covas anônimas nas quais foram enterradas quase mil crianças indígenas.

Com verbas do governo canadense, 150 mil crianças indígenas foram enviadas a internatos religiosos entre 1883 e 1996, num esforço para apagar sua cultura, e substituí-la por ensinamentos “cristãos”. Em instituições superlotadas, as crianças sofreram de doenças e maus tratos. Os trabalhos de buscas das covas não-marcadas estão só começando. Estima-se que mais de 10 mil cadáveres de crianças serão encontrados.

Padres e monges abusavam sexualmente das crianças, e fetos gerados pelos estupros eram incinerados. Freiras diziam às crianças que elas eram “pagãs” e jamais seriam salvas, lembram sobreviventes.

Desses internatos, 70% eram católicos e 30%, protestantes. O governo canadense e a Igreja Unida do Canadá, a maior denominação protestante, já pediram perdão por esses crimes. Apesar de apelos do primeiro-ministro Justin Trudeau, o papa Francisco se recusou a fazer o mesmo.

Os EUA adotaram a mesma política ao longo de 150 anos, e calcula-se que centenas de milhares de crianças também tenham sido vítimas desses internamentos forçados. A secretária do Interior, Deb Haaland, de origem indígena, prometeu que o governo americano também realizará buscas nos terrenos dos antigos internatos.

As Américas têm uma imensa dívida com seus moradores originais, e consigo mesmas. Ignorar o conhecimento que eles têm da natureza representa uma perda econômica inestimável. Para ficar na especialidade de Elisa Loncón, a linguística, num trabalho publicado em 25 de janeiro de 1889 neste jornal, João Mendes de Almeida, então presidente da Sociedade dos Homens de Letras de São Paulo, mostrou o impressionante volume de  conhecimento contido nos nomes dos rios amazônicos, ao decodificá-los, sílaba por sílaba, do tupi.

Se o Brasil tivesse programas científicos para pesquisar o conhecimento indígena da natureza, seria dono de muitas patentes de produtos industriais no mercado mundial. A Amazônia não seria vista como um problema, uma vulnerabilidade internacional, mas como a nossa maior riqueza.

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