O paradoxo da tolerância

Lourival Sant’Anna

18 Setembro 2018 | 10h51

Várias pessoas responderam ao meu texto sobre a necessidade de dialogar com os autoritários citando o “paradoxo da tolerância” de Karl Popper.

No livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos (The Open Society and Its Enemies), publicado em 1945, Popper, nascido na Áustria e naturalizado britânico, formula assim esse conceito (a tradução é minha): “A tolerância ilimitada deve levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada aos intolerantes, não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o massacre do intolerante. Então, o tolerante será destruído e, com ele, a tolerância”.

O trecho acima parece respaldar a ideia de que os autoritários devem ser excluídos da sociedade, antes que suprimam a liberdade. Entretanto, Popper continua: “Nesta formulação, não quero dizer, por exemplo, que deveríamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes. Desde que possamos nos contrapor a elas com argumentos racionais e mantê-las sob o escrutínio da opinião pública, a supressão seria certamente um erro”.

Ou seja: enquanto estivermos numa sociedade democrática, podemos e devemos aceitar a expressão de ideias autoritárias, e contradizê-las com argumentos.

O texto continua, descrevendo a dinâmica que leva os autoritários a desprezar e a abandonar o debate: “Mas deveríamos reivindicar o direito de suprimi-los, se necessário mesmo pela força, pois pode facilmente ocorrer que eles não estejam preparados para nos enfrentar no nível do argumento racional, mas começar a denunciar todo e qualquer argumento. Eles podem proibir seus seguidores de ouvir argumentos racionais, por considerá-los enganosos, e ensinar-lhes a responder argumentos com o uso de seus punhos ou pistolas”.

Popper conclui: “Deveríamos portanto reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. Deveríamos reivindicar que qualquer movimento que pregue a intolerância se coloca fora da lei, e deveríamos considerar criminosa a incitação à intolerância e à perseguição, da mesma maneira que deveríamos considerar criminosa a incitação ao assassinato, ou ao sequestro, ou à retomada do comércio de escravos”.

É o que eu também digo, na conclusão do meu texto, sobre a incitação criminosa à violência. O Estado de Direito detém o monopólio da força, e deve agir por meio da polícia, com respaldo nas leis e mediante uma ordem do Poder Judiciário. Essa é a forma de agir dentro de uma democracia. E é também a forma de preservá-la.

De qualquer maneira, é um progresso estarmos discutindo Popper. Também devemos discutir a previdência, a segurança, a educação, a saúde e os gastos públicos. O que não podemos é parar de discutir.