Onipotentes, políticos estão protegidos do contato com a realidade e a crítica

Onipotentes, políticos estão protegidos do contato com a realidade e a crítica

Lourival Sant’Anna

26 Agosto 2016 | 19h24

Quando a abertura do impeachment foi votada na Câmara, com aquele desfile de mediocridade, alguns se consolaram acreditando que no Senado o nível seria melhor. Com seu comportamento patético, os senadores se encarregaram de desfazer essa fantasia. A questão que fica é se o Congresso representa ou não os brasileiros. Minha resposta mais superficial tende a ser que sim: a impulsividade, a infantilidade, a incongruência lógica e a fratura ética (“eu te alivio e você me ferra?”, ou “não me ataque que eu falo dos seus podres”) são, em grande medida, aspectos da cultura brasileira.

Mas então busco referências em outros países, e vejo que há uma diferença. Na Inglaterra, na Alemanha e na França, por exemplo, existem pessoas com essas características também, e em número suficiente para ocupar parte considerável de seus Parlamentos. Por que os políticos em geral têm, naqueles países, um nível um pouco acima do que o da parcela mais bem formada da população? E atenção: eu não me refiro aqui a nível de instrução, nada disso. Conheço muitos brasileiros que estudaram pouco e tiveram pouco acesso à informação, mas que exibem muita dignidade e coerência, na sua simplicidade e falta de pretensão. E inversamente, muitas pessoas que tiveram acesso a tudo, mas se comportam como esses deputados e senadores. Por isso, falo em “formação”, no sentido amplo, que traduz uma integridade ética, cognitiva e emocional.

É possível que, nos países que eu citei, a média da população esteja alguns degraus acima da brasileira, nesses quesitos. Mas meu sentimento é o de que os políticos desses países estão acima da própria média. Tanto nesses países quanto no Brasil, os políticos tendem a ter bem mais acesso à informação, ao polimento intelectual, do que a média da população. Muitos desses deputados e senadores que nos envergonharam têm nível universitário, e no entanto sua capacidade de organizar seu pensamento e suas emoções é muito inferior à de muitos brasileiros com pouquíssimo acesso.

Minha hipótese é a de que, nos países mais bem organizados, os políticos observam melhor os limites do aceitável e do inaceitável porque têm uma relação mais próxima com os eleitores mais bem formados, e se sentem em maior dívida com eles. Noutras palavras, têm vergonha de desapontá-los, porque se encontrarão com eles, fisicamente, no seu dia a dia e nas eleições. Isso se deve em parte à cultura, que naqueles países não cria um distanciamento tão grande entre os poderosos e as pessoas comuns, que têm mais consciência de que o poder econômico e político provém delas, e apenas o emprestam aos políticos, por meio dos impostos e dos votos.

Mas junto com isso está também o sistema distrital, que circunscreve a votação a uma área determinada, criando um corpo a corpo entre políticos e eleitores. Acho que os políticos naqueles países têm mais contatos com eleitores de todos os tipos, mas acabam se referenciando nos cidadãos com mais capacidade de articular conceitos. Quero dizer que os políticos se lembram desses seus “pares”, que são os eleitores com alguma formação intelectual, como eles, e que colocam limites à sua forma de se expressar.

No Brasil, os políticos estão muito soltos, muito onipotentes e muito protegidos. A política aqui é uma operação de marketing, não um diálogo com o mundo real, e o corpo a corpo se dá com os necessitados, que vêm pedir algo, e não se sentem em condição de exigir nada. É um pouco o que se diz às vezes dos jogadores de futebol que, ao ganhar milhões, perdem o contato com a realidade. Sentem-se acima de tudo. Se no esporte isso é decepcionante, pois ele deveria servir de inspiração, na política isso é destrutivo, porque transforma a discussão do destino de um país em um espetáculo constrangedor, afastando a população dessa discussão e, em última análise, minando a democracia.

Senadores Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann discutem com Renan Calheiros AFP PHOTO / AGENCIA BRASIL / MARCELO CAMARGO /

Senadores Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann discutem com Renan Calheiros
AFP PHOTO / AGENCIA BRASIL / MARCELO CAMARGO /