Os ladrões de Voltaire

Os ladrões de Voltaire

Lourival Sant'Anna

19 de dezembro de 2019 | 10h25

Circulam na internet textos e vídeos que atribuem ao filósofo francês Voltaire (1694 –1778) a distinção entre dois tipos de ladrões: o comum, que rouba os bens materiais, e o político, que rouba os sonhos e o futuro. É um pouco difícil que o texto seja mesmo de Voltaire. Não só porque cita “automóveis” entre os bens materiais. Isso poderia ser uma adaptação. Mas porque Voltaire viveu sob a França absolutista, onde não havia eleições. Seus embates – ele foi duas vezes preso e acabou exilado na Inglaterra, na Prússia e na Suíça –  eram com o regente Felipe II e o rei Luís XV, não com políticos eleitos. Fiz uma busca no Google com as palavras “Voltaire”, “voleurs” (ladrões) e “politiques” e não veio nenhum resultado.

A indignação com os políticos brasileiros é justificável e saudável. A qualidade da maioria deles está abaixo da crítica. Precisamos de uma reforma no sistema partidário e eleitoral. O atual sistema atrai desonestos – tanto no sentido intelectual quanto material – e afugenta os honestos. Para que essa reforma aconteça, os políticos precisarão ter certeza de que não se reelegerão, se a continuarem bloqueando – ao contrário do que sentem hoje. E isso cabe a nós, eleitores.

Todo esse raciocínio tem como premissa que a democracia é o melhor regime, e precisa ser aperfeiçoada. O que me preocupa é que textos e vídeos como esses sejam usados numa campanha sub-reptícia para justificar a ditadura. O fato de usarem falsamente o nome de Voltaire, que sacrificou sua vida pela defesa da verdade (embora ele também tenha sido acusado de misógino, homofóbico, anti-semita e anti-islâmico), só reforça essa preocupação. Nas ditaduras, a corrupção não é investigada. Nem a mentira. Elas se tornam um direito natural de quem está no poder. Pergunte a Voltaire.

Voltaire com 28 anos, por Nicolas de Largillière. Reprodução: Wikipedia

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