Putin entrega o que os russos mais prezam: estabilidade

Putin entrega o que os russos mais prezam: estabilidade

Lourival Sant'Anna

15 de janeiro de 2020 | 17h26

Quando eu cobri a última eleição presidencial na Rússia, em março de 2018, o favoritismo de Vladimir Putin deslocava as especulações para 2024: quem ele prepararia como seu sucessor? Naquele momento parecia bizarra – não impossível, porque a história da Rússia já provou muitas vezes que nada é impossível – a possibilidade remota de Putin inventar algum truque para continuar no cargo, uma vez esgotadas as suas chances legais de se reeleger.

Estamos acostumados a assistir à coreografia entre Putin e o primeiro-ministro Dimitri Medvedev para driblar os limites constitucionais. Em 2008, quando o segundo mandato de Putin acabou, ele trocou de cargo com Medvedev, que se elegeu presidente (noutro pleito sem surpresas que eu também cobri). Claro que o poder foi junto com Putin para a função de primeiro-ministro. Em 2012, como era de se esperar, por mais explícito que fosse o jogo, Putin se elegeu presidente de novo, agora para um mandato de seis anos, em vez de quatro.

Putin com Medvedev, em 30/8/2015
Foto: Yekaterina Shtunika / SPUTNIK / AFP

A renúncia de Medvedev e de todo o gabinete, diante do anúncio de Putin de que pretende mudar a Constituição, sugere que a dança das cadeiras acabou. Um sinal de que algo poderia estar sendo armado era que Putin, aos 67 anos, e no poder desde 2000, não estava de verdade preparando um sucessor, ainda que fosse alguém que ele pudesse tutelar depois de deixar o cargo em 2024.

A manobra de Putin chocou a elite russa. Mas essa já não costuma apoiar o presidente. Para as pessoas comuns, o presidente continua sendo a garantia de estabilidade, tanto política quanto econômica, algo que os russos, sobretudo os mais velhos, que viveram o trauma da transição dos anos 90, prezam acima de tudo. Putin é o conhecido, o previsível. Num país que nunca teve democracia, alternância de poder parece um valor vago, quando não indesejável.