Putin se reunirá com Bibi em momento de ansiedade em Israel

Putin se reunirá com Bibi em momento de ansiedade em Israel

Lourival Sant'Anna

15 de janeiro de 2020 | 16h54

O presidente Vladimir Putin e o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu se reúnem no dia 27 de janeiro, em um momento de ansiedade elevada em Israel sobre a crescente projeção do Irã na vizinha Síria, com o chamado guarda-chuva estratégico (a proteção de uma potência nuclear) da Rússia. O interessante é que Putin também tem um pedido a fazer a Netanyahu, que ele não pode atender. A data coincide com o 75.º aniversário da liberação do campo de concentração de Auschwitz. Putin participará da comemoração.

Quatro dias depois do assassinato do general iraniano Qassim Suleimani, Putin se reuniu com o presidente da Síria, Bashar Assad, em Damasco. O fato de 20 dias depois poder se sentar com o primeiro-ministro de Israel, arquiinimigo da Síria e de seu patrocinador, o Irã, é mais uma amostra da situação única ocupada pela Rússia no Oriente Médio, de uma espécie de fiel da balança.

Netanyahu pedirá a Putin que contenha o Irã em sua influência sobre a Síria. Nesses oito anos de guerra civil, Israel realizou cerca de 1.000 operações no espaço aéreo sírio, sobretudo para interromper as linhas de suprimento de armas do Irã – que para isso tem usado o território iraquiano – para o Hezbollah. A milícia xiita libanesa patrocinada pelo Irã travou uma guerra com Israel em 2006, que eu cobri, e de lá para cá cresceu em experiência e na qualidade de seu armamento.

No ataque mais recente, ocorrido na terça-feira, à base aérea T-4, na província de Homs, norte da Síria, três combatentes iranianos ou de milícias apoiadas pelo Irã foram mortos e vários ficaram seriamente feridos, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

Putin com Bashar Assad na Mesquita Ummayad, em Damasco
Foto: SANA / AFP

“As relações entre Israel e a Rússia são excelentes, e os russos permitem quase livremente a atuação da Força Aérea israelense nos céus da Síria”, me disse Samuel Feldberg, pesquisador da Universidade de Tel Aviv. “A expectativa é de uma ratificação desses entendimentos, mas a visita também pode ser vista como apoio de Putin à campanha eleitoral de Bibi.”  Depois de uma eleição inconclusiva em setembro, Israel passará por nova votação no dia 2 de março.

Em contrapartida, Putin espera que Israel possa ajudá-lo a melhorar as relações com os Estados Unidos e a Europa, um antigo objetivo do presidente russo. É provável que o presidente russo superestime a influência de Israel sobre o Ocidente. E que Netanyahu se desaponte com o nível de disposição de Putin de conter o Irã. Afinal, a estratégia da Rússia, que inclui a aliança com o Irã, tem contribuído para aumentar sua influência na região. Claro que a invasão do Iraque em 2003, que aproximou o país do Irã; a omissão dos EUA na Síria, que vem desde o governo Barack Obama; o reagrupamento do Taleban no Afeganistão, e eventos como o assassinato de Suleimani também têm prejudicado os EUA e ajudado a Rússia.

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