Queda de avião: iranianos exigem renúncia do líder espiritual

Queda de avião: iranianos exigem renúncia do líder espiritual

Lourival Sant'Anna

12 de janeiro de 2020 | 15h09

Na minha coluna deste domingo no Estadão, escrevi que a escalada aproximava o líder espiritual Ali Khamenei de seus objetivos, ao reforçar as posições dos conservadores que o apoiam. Felizmente, eu disse que era um balanço “preliminar”. A situação mudou, com o reconhecimento do regime de que um míssil iraniano derrubou o avião ucraniano na quarta-feira, matando 176 pessoas.

Imagem de vídeo de celular postado nas redes sociais mostra protesto de iranianos

Manifestações eclodiram em Teerã e em outras cidades iranianas, exigindo a renúncia de Khamenei. “Estão mentindo que nosso inimigo é a América. Nosso inimigo está bem aqui”, gritava um grupo em frente a uma universidade em Teerã, em vídeos postados no Twitter, no domingo. “Khamenei é assassino”, dizia um grupo em outros vídeos. “Morte ao ditador” foi uma das palavras de ordem no sábado. “Peça desculpas e renuncie”, pediu o jornal moderado Etemad, segundo a agência Reuters.

Uma brasileira que mora em Teerã contou que as emissoras de TV locais não estão mostrando os protestos, e que ela os viu porque assina canais a cabo estrangeiros.

A indignação dos iranianos é alimentada não só pelo “erro desastroso”, como o qualificou o presidente Hassan Rouhani, um moderado, mas porque de quarta até sexta-feira o regime negou que o avião tivesse sido derrubado por um míssil. Ele foi disparado por engano, quando as Forças Armadas iranianas estavam em alerta máximo, à espera de represália americana, horas depois de disparar 22 mísseis contra duas bases dos EUA no Iraque.

Acidentes como esse acontecem. É por isso que todo governo sensato fecha o espaço aéreo de um país quando ele é o teatro de um engajamento militar envolvendo aviões, mísseis e artilharia antiaérea.

Hossein Salami, comandante da Guarda Revolucionária, corpo de elite das Forças Armadas, disse ter avisado já no dia da queda do avião que ele tinha sido atingido por um míssil iraniano. Mesmo assim, um porta-voz das Forças Armadas iranianas chamou de “propaganda” e de “ridícula” a hipótese de o avião ter sido derrubado. Só que a Autoridade de Aviação Civil do Irã se recusou a entregar a caixa preta à Boeing, a fabricante do avião, para analisá-la, como é de praxe.

O incidente pôs fim à trégua nos protestos contra o regime, que se havia instalado pelo luto pela morte do general Qassim Suleimani, comandante da Força Quds, morto por um ataque com drone americano no dia 3. E mostrou que os iranianos podem considerar Suleimani um herói, mas não o confundem com o líder espiritual e a teocracia que ele dirige, profundamente impopulares.

Essa impopularidade tem se intensificado com as dificuldades econômicas criadas pelas sanções impostas pelo presidente Donald Trump, depois de romper o acordo nuclear, em abril de 2018. Trump anunciou nova rodada de sanções depois do ataque contra as duas bases americanas na noite de terça-feira. Dessa vez, contra aço e outros metais.

Os protestos começaram há mais de dez anos, diante das evidências de fraude na eleição presidencial de 2009, que eu cobri. O regime os reprime com enorme ferocidade. Eu vi jovens sendo jogados em camburões, com as mãos atadas para atrás com lacres de nylon. Muitos foram levados para a prisão de Evian, em Teerã, onde não tiveram contato com familiares nem com advogados. Alguns nunca mais foram vistos.

Na última onda de protestos, 208 pessoas foram mortas em menos de uma semana, em novembro, segundo a Anistia Internacional. 

O presidente Donald Trump tem razão em salientar a coragem dos manifestantes. Mas alguém precisa dizer para ele que ele não ajuda e só atrapalha, ao tuitar: “Aos líderes do Irã — NÃO MATEM SEUS MANIFESTANTES. Milhares já foram mortos ou presos por vocês, e o mundo está assistindo”.

O regime não vai atender ao pedido de Trump. Ao contrário, vai usar o seu tuíte para alegar que os protestos são incentivados por inimigos do Irã.

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