Sinais de convulsão social

Lourival Sant’Anna

01 Outubro 2018 | 11h39

Caminhando nesse domingo pela Avenida Paulista, tive a sensação de estar na cobertura de eleições em um país em convulsão, como a Venezuela. Dois sinais visíveis: o uso ostensivo de cores para identificar cada “bando” e a presença de militantes com porte físico e atitudes de seguranças, que saem às ruas para intimidar os que pensam de outro modo.

O grupo dos “patriotas”, que costuma defender a exclusão e a intolerância,  geralmente captura a bandeira nacional e suas cores.

Do outro lado, a esquerda populista e autoritária resgata o vermelho comunista, associado a ditaduras que cometeram crimes contra a humanidade.

Ambos anseiam calar os outros e capturar o Estado para si, em projetos de permanência no poder de longo prazo, que depois se tornam uma necessidade vital, para protegê-los da punição dos crimes que cometem.

A política deixa de ser o lugar do convencimento e mergulha no tribalismo. Os grupos passam a se comportar como torcidas de futebol, capazes de agredir alguém em razão das cores de suas roupas. Não há nuances possíveis: ou você está do meu lado ou contra mim. Esse ambiente é bom para os dois extremos, porque seus planos não resistem a discussões de propostas com base em dados de realidade.

Em todos os países em que cobri convulsões sociais e guerras, as pessoas sempre me disseram: “Eu vi isso acontecer em outros lugares, mas nunca pensei que aconteceria aqui”. Se a sanidade mental da maioria silenciosa não convergir para um nome nos próximos dias, daqui um tempo somos nós, brasileiros, que corremos o risco de dizer isso.

Aqui, não temos um Emmanuel Macron, um liberal capaz de derrotar nas urnas os extremismos da ultranacionalista Marine Le Pen e do comunista Jean-Luc Mélenchon. Apenas cinco candidatos moderados (Marina Silva, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e João Amoêdo) sem capacidade de aglutinar o voto da maioria e seis pessoas desconectadas da realidade (Ciro Gomes, Cabo Daciolo, Guilherme Boulos, José Maria Eymael, João Goulart Filho e Vera Lucia).

Para evitar o desastre da vitória dos extremos, os moderados teriam de se juntar formalmente, numa frente de união nacional. Mas eles parecem mais preocupados com seu interesse individual do que com o país.