Trump pode ser arrastado para conflito entre Arábia Saudita e Irã

Trump pode ser arrastado para conflito entre Arábia Saudita e Irã

Lourival Sant'Anna

16 de setembro de 2019 | 09h15

O ataque pode partir dos sauditas. O Irã provavelmente retaliará. Se os EUA não defenderem a Arábia Saudita, perderão credibilidade.

Fumaça cobre a refinaria de petróleo Abqaiq da estatal Aramco, depois de ataque, na Arábia Saudita.
Foto: AFP – 14/9/2019

A principal refinaria e o principal campo de petróleo da Arábia Saudita foram alvo de 19 ataques no sábado. A milícia xiita houthi assumiu responsabilidade. Ela enfrenta o governo do Iêmen, apoiado pela Arábia Saudita. Mas evidências de inteligência dos Estados Unidos indicam que os drones ou mísseis usados no ataque partiram do Irã ou do Iraque. O Irã nega.

O presidente Donald Trump disse que os EUA estão prontos para retaliar se ficar provado envolvimento do Irã. Está provado já que os houthis são patrocinados pelo Irã. Mas Trump não quer iniciar uma guerra agora, quando se prepara para disputar a reeleição em novembro do ano que vem. Ele se elegeu em 2016 prometendo desengajar os EUA de conflitos.

O plano de Trump era entregar acordos históricos. Ele havia nomeado John Bolton, um “falcão”, para o Conselho de Segurança Nacional, no ano passado, para negociar esses acordos em posição de força. Bolton saiu há uma semana, marcando a entrada de Trump em sua etapa de “pacificador”. O Irã e demais adversários dos EUA entendem isso como uma fragilidade, e por isso estão flexionando músculos, para obter maiores vantagens em eventuais negociações.

Depois de romper o acordo nuclear e impor as sanções mais rigorosas já impostas sobre o Irã, Trump acenou com um encontro com o presidente iraniano, Hassan Rouhani. Ele é um moderado, e gostaria de negociar, mas está sob pressão da corrente nacionalista e conservadora, encabeçada pelo líder espiritual, Ali Khamenei. As sanções impostas na década passada sobre o Irã, com adesão na época da Europa, empobreceram o país e ameaçaram a teocracia. Os conservadores iranianos querem provar para os EUA que o custo dessas novas sanções seria muito alto.

O Irã desafiou o Reino Unido ao entregar petróleo para a Síria, em um cargueiro que tinha sido detido no território britânico de Gibraltar. A justiça britânica liberou o cargueiro porque não havia provas de que seu destino era a Síria, o que violaria outras sanções, adotadas pelo Reino Unido.

Os ataques expuseram a Arábia Saudita a uma situação de vulnerabilidade. O Irã, seu maior adversário, provou que pode driblar sua defesa antiaérea. Mohamed bin Salman, o príncipe herdeiro saudita, tem a sua posição contestada por primos. A sucessão é sempre um momento delicado na Arábia Saudita. Pode partir dos sauditas a iniciativa de um ataque. O Irã provavelmente retaliará. Se os EUA não defenderem a Arábia Saudita, perderão credibilidade. Trump pode ser arrastado a um conflito, mesmo contra a sua vontade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: