A bagagem histórica de um lugar. Artista canadense cria vídeo-instalação imaginando estúdio lendário por onde passaram Miles Davis, Billie Holliday e Glenn Gould.

Lúcia Guimarães

21 de fevereiro de 2014 | 16h18

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STAN DOUGLAS (Cortesia Michael Courtney/ David Zwirner)

É possível reencenar o que não aconteceu? O poder de um lugar real onde muito aconteceu no passado inspirou a nova obra do artista canadense Stan Douglas. Luanda-Kinshasa é uma instalação-filme de seis horas em exibição contínua  que fica até 22 de fevereiro na Galeria David Zwirner, em Manhattan. Na tela, uma banda funk de dez músicos liderados pelo jazzista Jason Moran, toca no cenário de um estúdio de gravação, montado cuidadosamente por Douglas para evocar um ano que pode ser 1972.

O figurino dos músicos também pertence aos anos 70 e há até personagens que poderiam ter habitado a sessão, como namoradas e repórteres. Numa era de paródia e hiper-realidade, em que a ironia é o filtro cultural, Luanda-Kinshasa está longe de trivializar o momento  que representa. O efeito do filme é hipnótico e, como não há um alerta sobre a duração do filme na entrada da galeria, muitos se instalam nos pequenos bancos macios na sala escura e esquecem a passagem das horas.

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LUANDA-KINSHASA (Cortesia Stan Douglas/ David Zwirner)

O filme de Stan Douglas toma emprestado, nas cores em tom sépia o estilo visual do filme Sympathy for the Devil (1968), em que Jean-Luc Godard acompanhou uma gravação dos Rolling Stones. Mas o estúdio que o filme “recria” é o lendário The Church, o prédio da Columbia Records no lado Leste da Rua 30 em Manhattan, que durante mais de três décadas foi cenário de gravações de uma galeria de músicos que inclui Miles Davis, Bob Dylan, Aretha Franklin, Billie Holiday, Leonard Bernstein e Glenn Gould, entre outros. O prédio, demolido em 1982, tinha sido construído originalmente para abrigar uma igreja presbiteriana, em 1875. Seu amplo interior, o pé direito alto e sabe-se lá o que mais, contribuíam para músicos notoriamente obcecados com a engenharia do som insistirem em gravar lá. Douglas cita especificamente Miles Davis, que lá gravou o clássico Kind of Blue em 1959 e Glenn Gould que escolheu o The Church para sua primeira gravação histórica das Variações Goldberg, de J.S.Bach, em 1955.

O artista conta ao Estado que, quando estava na escola de artes, notou o que chama de um antagonismo à linguagem escrita e se dispôs a ler longos romances. A inspiração para Luanda-Kinshasa, conta, veio do personagem Adrian Leverkuhn, do Doutor Fausto de Thomas Mann. “Fiquei fascinado com o compositor que faz um pacto com o diabo para escrever uma grande peça musical,” lembra ele. “A certa altura, Leverkuhn usa seus poderes para tomar a Nona Sinfonia de Beethoven porque, ele acha, o mundo não merece uma peça musical tão bela. Então, pensei, como você toma a música de volta, como seria isto?”

A instalação em Manhattan tem também origem no interesse de Douglas pelo trajeto da música africana em Nova York a partir dos anos 70. Em 1972, Miles Davis lançou “On the Corner”, um dos seus discos menos bem sucedidos com o público e a crítica, na época. Davis tinha visto o público negro se afastar do jazz e queria se reconectar com um ouvinte que estava mais interessado em funk ou rock. Mas “On the Corner” foi muito mais do que um gesto de concessão musical. Experimentava um diálogo entre o funk e a música clássica indiana. Entre outras indagações, Luanda-Kinshasa, especula sobre o próximo estágio, um caminho que poderia ter atraído Miles Davis com uma presença maior do afro-beat.

A ideia de trazer algo de volta, diz Douglas, está no centro da sua preocupação com arte e cultura. “Eu não sou um arquiteto modernista que acredita na pureza de materiais. Acho que materiais vêm carregados da bagagem histórica com que foram produzidos.” Luanda-Kinshasa é seu tributo à memória de um tempo e um lugar.

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