Aquele Gil

Lúcia Guimarães

12 de novembro de 2011 | 16h52

Luiz Gonzaga, exílio, Bob Marley, expectativa da velhice e show acústico na noite de Gil.

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Gil na Biblioteca Pública de NY

(Foto Lúcia Guimarães)

O auditório estava lotado, na noite de quinta-feira, e o showman da noite parecia ser o anfitrião. O convidado entrou discreto, de terno preto e camisa cinza, e sentou na primeira fila. Um funcionário da biblioteca escoltou o lendário Claude Nobs, fundador do Festival de Montreux, a quem  Gil agradece por ter começado sua  carreira internacional, na década de 70.

No palco, Paul Holdengraber, o diretor do programa Live da Biblioteca Pública de Nova York abriu a noite contando como é boa a vida de quem tem a chance de entrevistar seus ídolos. Holdengraber, que aperfeiçoou a arte da entrevista como espetáculo, anunciou seu convidado e desapareceu para Gil ocupar o palco sozinho e se acompanhar ao violão em Eu Vim da Bahia.

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Paul Holdengraber entrevista Gil (Foto Lúcia Guimarães)

A conversa começou um pouco prolixa mas Holdengraber com sua técnica, digamos, proustiana, levou Gil para o território das memórias. Quando o anfitrião disparou uma gravação de Luiz Gonzaga cantando A Volta da Asa Branca, naquele cenário tão removido de Exu, terra de Gonzaga, ou Ituaçu, de onde Gil partiu aos 10 anos para estudar acordeão em Salvador, os olhos do convidado ficaram marejados e sua voz enrouqueceu.

Gil lembrou como a música americana e a brasileira são próximas, na influência do foxtrot sobre o baião de Gonzaga e na admiração de Pixinguinha pelas primeiras orquestras de jazz. Quando Gil hesitava em busca da palavra ideal para se expressar, o entrevistador completava sua frase e apressava o ritmo. A platéia caiu na gargalhada quando ele pediu a Gil para contar o que o lendário guitarrista Jimi Hendrix lhe havia dito quando se conheceram. Em 1971, o percussionista Airto Moreira, que estava se apresentando no Festival da Ilha de Wight com a banda de Miles Davis, viu Caetano Veloso e Gil na platéia e os chamou para o backstage.  Gil teve um branco e não se lembrou da conversa. Pediu a Holdengraber para recuperar sua memória. Hendrix, contou o anfitrião, lamentou as circunstâncias da chegada dos dois músicos brasileiros, exilados da ditadura militar, e lhes deu as boas-vindas.

A outra resposta que arrancou risos da plateia foi sobre as lições que Gil aprendeu em 3 meses de prisão, em 1969. “Yoga e macrobiótica,” ele resumiu. Holdengraber citou Caetano Veloso, no livro Verdade Tropical, para perguntar qual a influência de Bob Marley sobre a consciência negra de Gil. Ele concordou que entendeu melhor o significado de ser negro no continente americano quando viu como Marley afirmava sua identidade racial.

A entrevista foi interrompida com performances acústicas de Gil ao violão. Ele cantou  Não Chore Mais, sua versão do clássico de Bob Marley, e Expresso 2222.

Na conclusão da noite, um momento de leve melancolia. Quando o anfitrião perguntou sobre a perspectiva da velhice, Gil, que completa 70 anos em 2012, disse que queria viver de acordo com sua idade, e se dirigiu ao público: “Espero que vocês todos tenham a oportunidade de envelhecer. Vocês vão ver como é.” Mas, num exemplo de que sua terceira idade dificilmente poderia ser  imitada por muitos dos presentes, pegou de novo o violão e fez a plateia cantar refrões sem letra do samba Aquele Abraço, que compôs quando partia para o exílio. A maioria dos presentes podia não entender  porque “Chacrinha continua balançando a pança” mas a despedida sacudiu de alegria o solene salão em estlo Beaux Arts da sede da Biblioteca da Nova York.

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Gil conclui a noite com Aquele Abraço (Foto Lúcia Guimarães)

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